O 'filho de Chávez' falhou

Resultados eleitorais produzem outras consequências além de definir vencedores e perdedores. Na Venezuela, as urnas de domingo declararam vitorioso o candidato do regime, Nicolás Maduro, beneficiado pelo dedazo de Hugo Chávez em dezembro último, quando o caudilho já pressentia o pior para si. Em tese, o vice-presidente e ex-ministro do Exterior conquistou o direito de ficar no Palácio Miraflores até 2019, autorizado, de resto, a disputar em seguida novos mandatos, graças ao golpe com o qual o seu mentor pretendia enfeixar ele próprio o poder até provecta idade. Mas o eleitorado venezuelano, ao preferir o herdeiro do caudilho ao opositor Henrique Capriles pela irrisória diferença de 1,5% dos votos, infligiu ao autodeclarado "filho de Chávez" - que afirmou na campanha ter sido visitado pelo falecido sob a forma de um passarinho - uma derrota política que provavelmente o impedirá de voar longe.

O Estado de S.Paulo

16 Abril 2013 | 02h11

Na última disputa de que participou em pessoa, em outubro passado, quando ainda se dizia curado do câncer que o acometera em meados de 2011, Chávez bateu o mesmo Capriles por aproximadamente 11% de vantagem. Dois meses depois, com o Comandante se tratando em Cuba, os candidatos do PSUV, o partido oficial, arrebanharam os governos de 20 dos 23 Estados do país, privando assim a oposição de 4 dos 7 governos que detinha. Por fim, ao se iniciar a breve - e rancorosa - campanha em busca de votos, enquanto o regime dava extravagante significado ao termo "exploração de cadáver", numa versão caribenha da deificação do primeiro líder norte-coreano Kim Il-sung, dava-se como praticamente certo que Maduro se imporia ao estigmatizado Capriles de tal modo a não deixar dúvidas sobre a identificação, aos olhos do povo, do apadrinhado com o patrono. O que se verificou, porém, foi uma irreversível erosão da popularidade de seu herdeiro, registrada nas pesquisas, uma depois da outra.

Nos palanques, ele exortava os compatriotas a premiá-lo com 10 milhões de votos - perto de 2 milhões a mais do que Chávez obtivera há meio ano. Ficou com cerca de 7,5 milhões. O caudilho superou Capriles por 1,6 milhão de sufrágios. Maduro, por menos de 240 mil - e o derrotado pediu a recontagem dos votos. (Na Venezuela, a votação é eletrônica, com cópia impressa depositada em urna.)

O comparecimento (78,7%) foi quase o mesmo de outubro (80,4%). Se a conduta do eleitorado reproduziu as pesquisas, uma proporção maior dos simpatizantes de Maduro do que os de Capriles foi votar. Em suma, tudo indica que, na dividida Venezuela - onde a oposição poderia ter surpreendido o mundo, levando a melhor por pequena margem -, centenas de milhares de antigos eleitores de Chávez não são necessariamente bolivarianos. Esse não alinhamento automático parece um dado da cena venezuelana mais decisivo do que os erros táticos de Maduro no correr da campanha - a começar da palhaçada do passarinho.

Graças ao seu carisma, Chávez conseguiu que a maioria confiasse, contra todas as evidências, na sua capacidade de resolver os problemas que levaram gradativamente o país à decomposição. Ele fazia crer, além disso, que esses problemas foram causados pelos "inimigos da Revolução" e não por ele próprio e seus capachos que suportavam os seus surtos temperamentais, ao longo de 14 anos de desgoverno, demagogia e corrupção. Para mal dos pecados de Maduro, ele foi obrigado, enquanto o padrinho tentava se curar em Cuba, a desvalorizar a moeda nacional, elevando a cotação do dólar de 4,30 para 6,30 bolívares, com fortes reflexos sobre a inflação já da ordem de 20%. Isso porque a delirante gastança de Chávez havia deixado a Venezuela que transborda petróleo à míngua de divisas para enfrentar as crônicas crises de desabastecimento - já não bastassem os apagões, a criminalidade irreprimida, o desmanche da infraestrutura.

O poder do chavismo sobre o Estado, é bem verdade, continua intacto. O regime domina a Assembleia Nacional, controla o Judiciário e parece ter a lealdade das Forças Armadas (são militares, aliás, 10 dos 20 governadores bolivarianos). Mas acaba de perder a hegemonia sobre a nação. Reconquistá-la será o primeiro grande objetivo do sucessor de Chávez.

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