O fim da agricultura

Ela será substituída por um empreendimento econômico conduzido por ciência e tecnologia

Zander Navarro, O Estado de S.Paulo

17 Dezembro 2016 | 04h00

O título não é sensacionalista nem propõe um exercício especulativo de futurologia. De fato, são dois os principais desenvolvimentos, concretos e de grande envergadura, que apontam o desenlace indicado – uma inédita transformação da agricultura. Um deles é mais geral e o outro diz respeito, especificamente, ao caso brasileiro. Não ocorrem apenas na esfera econômica e financeira, pois também se modifica a estrutura produtiva e tecnológica, gerando consequências sociais, às vezes problemáticas. Uma vez aprofundados e irreversíveis nas duas décadas adiante, sem nenhuma dúvida, são desenvolvimentos que mudarão abissalmente a atividade humana que conhecemos como “agricultura” há pelo menos 10 mil anos. E o Brasil, na iminência de se alçar a maior potência mundial ofertante de alimentos, igualmente observará inevitáveis e sísmicas mudanças em seu mundo rural.

Ainda mais decisiva, se examinada por uma lente cultural, será atividade operada com escassa presença de pessoas, gradualmente diluindo a imaginação da sociedade sobre a vida rural e até mesmo esmaecendo o papel da natureza na produção dos alimentos. Ao contrário de algumas sonhadoras previsões, a distância que vincula a origem rural à mercadoria “alimento” deverá ampliar-se notavelmente na percepção dos indivíduos, também em razão das impressionantes inovações no processamento agroindustrial, capaz de ofertar novos produtos em velocidade crescente. No lastro cultural mais entranhado da sociedade, entre os grandes temas de discussão, esse fato gradualmente fará desaparecer a concretude das regiões rurais, a vida social no campo e até o papel da natureza. Na visão dos cidadãos, o bucolismo dos ambientes “naturais” e suas supostas virtudes serão, assim, separados dos espaços da produção.

O primeiro desses “grandes eventos” já está em curso nos sistemas agroalimentares dos países de capitalismo avançado onde o setor ostenta significativo peso econômico, particularmente nos Estados Unidos. Há uma silenciosa, mas espetacular combinação entre a transformação organizacional e a intensificação tecnológica em andamento na operação econômica que intitulamos “agropecuária”. São inúmeros os vetores que conduzem à mudança, dispensando os agricultores, mas exigindo agora agroadministradores que possam decifrar e coordenar a complexidade que se vai estruturando. Na história do capitalismo, como em outros momentos que condensaram múltiplas inovações, são processos que elevam a produtividade geral, ampliam fortemente a produção e eliminam muitas incertezas (enquanto introduzem novos riscos). Como resultado geral, vem se alterando a própria essência da atividade, fazendo-a totalmente distinta de sua imagem milenar.

Muitos são os campos de inovação que promovem esta revolução. São ações que mobilizam a biociência agrícola, especialmente os avanços na genética molecular, os novos produtos em automação e robótica e, sobretudo, o nascimento de uma “agricultura digital”, reconfigurada a partir de bases de dados e altíssima conectividade. São novas técnicas que tornam exponencial a capacidade dos administradores de otimizar os resultados, maximizando o uso dos recursos disponíveis. Se as manchas dos solos diferem entre si, por exemplo, multiplicando o uso de sensores, qual a combinação de água, fertilizantes e controle de pragas e doenças, além de plantas reconfiguradas por edição genômica, que permitirá obter a máxima produção com a mais alta produtividade final – e, portanto, a melhor rentabilidade possível? As respostas concretas já existem, na produção de alguns países.

Sem detalhes adicionais, inclusive sobre as inovações existentes nas demais partes do sistema agroalimentar, mudam assim a estrutura decisória e o “modelo de negócio” da agropecuária. Imagine-se, como curta ilustração, a pecuária de leite, que caminha para o confinamento de alta intensidade, com um único objetivo: obter a máxima lactação diária, descolando-a totalmente da alimentação obtida no campo. Levada ao extremo, a graciosa imagem dos animais comendo preguiçosamente em pastos verdejantes logo se tornará uma fotografia de tempos sem retorno.

Enfim, afirmado cruamente, trata-se de substituir a velha agricultura das decisões intuitivas do passado por um empreendimento econômico de exigências analíticas imensas e desafiadoras, conduzido obrigatoriamente pela ciência de vários campos disciplinares. São dois mundos opostos, e a velha agricultura começa a fazer parte das memórias passadas. É uma parte da economia que vai sendo convertida em mero “serviço” componente do sistema agroalimentar, como todos os demais que constituem as cadeias produtivas. E até a especificidade de serem os processos vivos os que caracterizam a agricultura é essencialidade que gradualmente se tornará irrelevante, pois a ciência está quase “domando a natureza” no processo produtivo.

O segundo grande desenvolvimento, aqui referido apenas de raspão, nos remete ao que é típico do caso brasileiro, diante desse novo contexto. São quase cataclísmicas as projeções antevistas, pois um terço dos nossos agricultores nem sequer sabe ler e em todas as regiões a maioria dos jovens está preferindo deixar o campo. É majoritária, mas muito pobre a população que vive no Nordeste rural, hoje uma região de fraquíssima expansão da moderna agropecuária. O próximo Censo, adicionalmente, mostrará uma concentração ainda maior da riqueza rural, apontando os vencedores das mudanças.

Por essas e outras razões, incluída a inoperância da ação governamental em face dessas gigantescas transformações, o mundo rural do Brasil também vai sendo radicalmente transformado. Em 2040, quem o comparar com os dias de atuais não acreditará que vive no mesmo país em que nós vivemos.

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