O fim da 'Nova Republica'

"As ruas não têm um programa pelo qual lutar. São contra Dilma e os partidos. Não são a favor de nada ... Não é só o governo que está à deriva, é o País todo ... O que prejudica o governo não beneficia a oposição. Não há partidos ou dirigentes políticos a lucrar com a crise ... não há organização ou personalidade que possa encarnar o desejo não expresso da massa ... Os líderes oposicionistas não se projetam pelas mesmas razões que fazem a Presidência sangrar: não dispõem de nexos com as correntes vivas da sociedade ... Para 75% dos brasileiros, os 32 partidos cheiram igual ... O cenário conduz à anomia ..."

Fernão Lara Mesquita, O Estado de S.Paulo

31 Março 2015 | 02h04

As frases acima foram tiradas de artigos deste e de outros jornais dos últimos dias. Temos 45 meses de governo Dilma pela frente. A onda de choques dos tarifaços da energia, dos combustíveis, da tributação dos salários e do dólar está rolando. Há reuniões de cortes em todas as empresas do Brasil. A cara mais feia da crise ainda nem chegou às ruas e já a única coisa que une o País é a aversão à política, que, na verdade, é aversão ao Estado de que os políticos se apropriaram, este que se serve e não serve e que incha à custa do constrangimento do País. Só que ninguém liga "lé" com "cré". A oposição mesmo, quando se dispõe a interromper o gozo passivo das desgraças da situação, que são as nossas, é para propor o uso de aspirinas para a cura do câncer.

Nada do que ficou para trás restou em pé. Com a passagem do PT pelo poder, com as duas décadas de atraso correspondentes ao período em que o País esteve suspenso do exercício prático da cidadania e mais a década extra proporcionada pelo "efeito China", que retardou a colheita do que o PT vem plantando, completa-se o ciclo da Nova República e o Brasil finalmente deixa o século 20 e alcança o resto do mundo na constatação de que somos uma só humanidade, sujeita às mesmas doenças, curáveis pelos mesmos velhos remédios de sempre.

Agora é remover o entulho.

Nada vai mudar na vasta coleção de misérias por baixo das quais ainda pulsa o pulso do Brasil com o que quer que venha a ser acrescentado à desordem institucional vigente. Para que outro Brasil possa nascer será preciso voltar atrás e plantar, afinal, em solo pátrio a pedra fundamental da democracia, que é a da igualdade perante a lei.

O crime não fica impune, entre nós, por falta de adjetivos na sua tipificação ou de números "trucados" na dosimetria das penas, mas porque temos cinco "Justiças" diferentes e nenhuma definição clara de competências, os juízes e os funcionários do Judiciário, como todos os funcionários públicos, tornam-se indemissíveis a partir do momento em que são nomeados pelos titulares dos Poderes que têm por função cercear, e porque é preciso varejar uma biblioteca inteira para decidir quem julga quem em quais circunstâncias dentro dos três Poderes e dos milhares de corporações em que o País está fatiado, tantos são os "foros" e os "direitos especiais". De fato é difícil saber se há hoje mais brasileiros sob regimes de exceção ou submetidos à regra geral, ou mesmo se existe uma regra geral e qual é ela.

Toda a retórica sobre "justiça garantista" é uma grossa mentira: a única função desse inextricável emaranhado é ser inextricável para ensejar o comércio do arbítrio e para garantir a imortalidade de um obsceno sistema de privilégios.

Outros povos entraram nesse labirinto e saíram. A chave da charada está em que a obra que se requer é de desconstrução e só pode ser levada a cabo em regime de mutirão e em etapas sucessivas pelas pessoas diretamente interessadas em que as coisas mudem. É um processo.

Não é fácil começá-lo, mas, num regime que ainda é o do consentimento da maioria, tudo o que é necessário fazer é fechar o foco, porque, uma vez dado o primeiro passo, ele é irreversível. O poder de retirar a qualquer momento o mandato concedido a um representante - o recall, que faz valer o princípio de que toda legitimidade emana do povo e somente dele - subverte a cadeia das lealdades e pavimenta o caminho da revolução permanente no campo institucional. Assim que o eleitor conquista esse poder, a única opção de vereadores, deputados e senadores passa a ser jogar a favor do seu representado ou ir procurar outro ramo de atividade. E por meio deles essa arma alcança também o Executivo.

A impunidade é a decorrência necessária de uma cadeia de lealdades pervertidas. Se o primeiro elo puder ficar impune e mantiver o poder de nomear "indemissíveis" para todo o sempre, todos os que estiverem abaixo dele ficarão impunes também. Não ha como romper essa lógica "por dentro". Só o recall é capaz de quebrar essa cadeia e o voto distrital puro - com cada candidato sendo eleito por um grupo identificável de eleitores - permite que ela seja quebrada quantas vezes for necessário apenas na parte doente do tecido social, sem que o restante da Nação seja perturbado.

A partir dessa conquista inicial a cidadania está condenada à vitória. Com o recall em punho, a primeira providência deve ser a de reforçar o arsenal. Pode-se inaugurar a temporada constrangendo gentilmente os legisladores a reforçar o alcance e blindar as leis de iniciativa popular contra desvirtuamentos espúrios (falo das sem filtro, legitimadas pelo voto universal fisicamente aferível, ainda que com alternativa de voto eletrônico, e não das falsificações do PT); estabelecer a obrigatoriedade de submeter a referendo qualquer aumento ou mudança de destinação dos impostos e outras decisões controvertidas dos Legislativos; instituir o voto de retenção de juízes de Direito, que operará no Judiciário o mesmo milagre já instalado no Legislativo; substituir funcionários nomeados por funcionários eleitos (sujeitos a recall); despartidarizar as eleições municipais para garantir o permanente afluxo de água fresca aos reservatórios da política...

Não há limites. Para fazer reformas - tantas quantas se tornarem necessárias - tudo o que é preciso é conquistar o poder de fazê-las você mesmo. E "a mão armada".

*Fernão Lara Mesquita é jornalista. Escreve em www.vespeiro.com 

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