O fim de Bin Laden

Osama bin Laden, o homem mais procurado do mundo, não estava entocado numa remota região afegã, sob a proteção do Taleban, como durante anos os serviços de inteligência dos Estados Unidos pareciam acreditar e os seus colegas paquistaneses asseguravam. O líder da organização terrorista Al-Qaeda, responsável, entre outros atentados, pelos ataques suicidas de 11 de setembro de 2001 em território americano que deixaram perto de 3 mil mortos, vivia com familiares e asseclas em fortificado casarão de 3 andares em Abbottabad, cidade paquistanesa de 500 mil habitantes, cerca de 120 quilômetros ao norte da capital Islamabad e sede da principal academia militar do país, abrigando diversas unidades do Exército paquistanês.

, O Estado de S.Paulo

03 Maio 2011 | 00h00

Eis por que nem mesmo o justificado júbilo pelo êxito da invasão do bunker de Bin Laden por forças especiais americanas levadas de helicóptero, que culminou com a eliminação de Bin Laden no começo da madrugada de domingo (hora local), pode disfarçar o mal-estar de Washington com a exposição pública do duplo papel do Paquistão na chamada guerra ao terror declarada pelo então presidente George W. Bush nos escombros do 11 de Setembro. Nestes quase 10 anos que se seguiram, os Estados Unidos elevaram a níveis sem precedentes os gastos militares com o seu aliado histórico no subcontinente asiático, além de despejar ali bilhões em programas de ajuda econômica e social.

Ainda assim, o pais islâmico, peça-chave no tabuleiro diplomático americano, nunca chegou a ser o parceiro confiável que os EUA desejavam ter na tentativa de golpear a Al-Qaeda, cujos militantes se acostumaram a cruzar, sem ser molestados, áreas da fronteira afegã-paquistanesa, enquanto agentes do temível serviço secreto de Islamabad, o ISI, olhavam para o outro lado. Em agosto passado, quando a CIA finalmente conseguiu mapear a localização de Bin Laden - dois anos depois de descobrir que o seu principal mensageiro vivia no Paquistão -, as relações entre os dois países já iam de mal a pior. Ao relutante engajamento paquistanês no combate à Al-Qaeda somavam-se graves divergências sobre o futuro do Afeganistão quando - ou se - o Taleban for neutralizado.

No pronunciamento em que anunciou a morte de Bin Laden, tarde da noite de domingo, o presidente Barack Obama se referiu à participação paquistanesa na busca do paradeiro do terrorista. Na realidade, os serviços americanos de espionagem fizeram eles próprios todo o trabalho - e Washington não compartilhou os resultados com ninguém. Mas os EUA continuam a depender do Paquistão (assim como da Rússia, por exemplo) para a logística da guerra afegã. Esse dado da realidade será inevitavelmente invocado nas novas pressões sobre a Casa Branca pela retirada americana, sob o argumento de que o fim de Bin Laden representa um divisor de águas na agenda contraterrorista do país.

Na verdade, a única certeza a emergir da formidável proeza de anteontem é que o combalido Obama saiu das cordas onde a oposição republicana parecia tê-lo confinado direto para a consagração - e a perspectiva da reeleição. Na campanha de 2008, ele prometeu repetidas vezes que Osama seria morto no seu governo. Agora, poderia metaforicamente socar o ar e proclamar "Yes, we can!". (No que diz respeito à desacreditada CIA, é a pura verdade.) Mas não precisará fazer isso, como não fez na sóbria fala de domingo, quando preferiu conclamar os americanos a reencontrar o "senso de unidade" forjado pelo 11 de Setembro. A menos que o mundo vire de ponta-cabeça, nunca mais os detratores do presidente poderão acusá-lo de ser um "líder fraco" aos olhos do mundo.

A ainda incerta recuperação da economia americana, com o nível de emprego se mantendo teimosamente num patamar inaceitável, constitui um obstáculo de monta para quem quer que fosse o titular de turno da Casa Branca. Em 1992, a economia fez Bush-pai perder a reeleição para Bill Clinton, um ano depois de vencer a Guerra do Golfo. Mas isso não se compara, no plano simbólico, ao impacto da liquidação da figura provavelmente mais odiada pelo povo americano em todos os tempos. "Fez-se justiça", disse Obama. No imaginário do país, foi ele quem a fez.

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