O fim do Parque Augusta

A proposta de criação do Parque Augusta, no terreno de 25 mil metros quadrados localizado entre as Ruas Augusta, Caio Prado e Marquês de Paranaguá, parece definitivamente enterrada. Apesar de algumas ressalvas, a decisão do Conselho de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp), autorizando a construção ali de três torres, põe fim, de forma melancólica, à luta de muitos anos para preservar integralmente uma das poucas áreas verdes desse porte ainda existentes na cidade e que conta com espécies remanescentes da Mata Atlântica.

O Estado de S.Paulo

31 Janeiro 2015 | 02h05

A posição do Conpresp, logo aceita pela Prefeitura, foi apresentada por ambos como uma solução sensata para o problema, porque atenderia à população, que ansiava pelo parque, e à indústria da construção civil. Mas isso mal disfarça a penosa impressão de que prevaleceu mesmo o interesse particular, em detrimento do público. As torres poderão ter até 45 metros de altura e devem ocupar no máximo 33% do terreno, o que preserva cerca de 700 árvores. O restante da área, embora de propriedade privada, das construtoras Cyrela e Setin, ficará aberto ao público.

Uma solução engenhosa e enganadora, porque na prática acaba com o parque ao mesmo tempo que tenta dar a impressão de que ele apenas será um pouco menor. Para a Secretaria Municipal de Cultura, de acordo com reportagem do Estado, a preservação daquela área foi uma contrapartida dada pelo Conpresp, que a isso foi levado pela "comoção popular". Em outras palavras, foi uma espécie de prêmio de consolação aos milhares de pessoas que, com claro apoio da opinião pública, batalharam durante anos para a criação do Parque Augusta. A Secretaria deveria pelo menos ter poupado os paulistanos disso que soa quase como um deboche.

O histórico desse caso, que se arrasta há mais de 40 anos, torna particularmente difícil para a população - em especial os que moram nas redondezas - engolir a solução dada pelo Conpresp com as bênçãos do governo Fernando Haddad. O terreno, que abrigou por décadas o tradicional Colégio Des Oiseaux, foi declarado de utilidade pública em 1970 para ser transformado em parque, mas em 1973 a Câmara Municipal revogou a medida. Pretendia-se construir ali um hotel de 1.400 apartamentos. As árvores seriam preservadas. Basicamente, portanto, um projeto não muito diferente do atual.

Uma série de projetos de linhas gerais semelhantes foi apresentada nos anos seguintes, mas nenhum vingou. Em 2006, foi apresentado à Câmara Municipal projeto de criação do Parque Municipal Augusta. Dois anos depois, o então prefeito Gilberto Kassab declarou o terreno de utilidade pública, já tendo em vista a construção do parque. Aquele projeto foi aprovado em fins de 2013 e logo sancionado por Haddad. Quando o problema parecia, então, finalmente caminhar para a solução tão desejada pela população, a própria Prefeitura começou a criar obstáculos para isso.

O principal deles foi o custo do projeto. Só a desapropriação do terreno custaria R$ 100 milhões. Alegou o atual governo não ter recursos para isso em sua escala de prioridades. Cresceu então a pressão de moradores da região e de ambientalistas para forçar a Prefeitura a concretizar a criação do parque, já que havia todas as condições legais para tal. Além disso, alegava-se, com toda razão, que uma cidade como São Paulo, tão carente de parques, não podia desperdiçar a oportunidade de aproveitar um dos poucos terrenos ainda disponíveis para essa finalidade.

Tudo isso para nada. O governo do PT, sempre pronto a trombetear seus compromissos com o social, com o meio ambiente e com o que deseja a população, preferiu ceder à pressão do setor imobiliário a buscar os recursos - nada proibitivos - necessários para a criação do parque. O Parque Augusta já era, porque na fórmula proposta ele não vai passar de uma caricatura.

Papel tão ou mais lastimável foi o desempenhado pelo Conpresp, que terá muita dificuldade para justificar tecnicamente sua decisão.

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