O fisiologismo de Haddad

As demissões de ocupantes de cargos comissionados indicados por vereadores que até há pouco integravam a sua base de apoio na Câmara Municipal não constituem apenas mais uma confirmação do que sempre se soube – a prática pelo prefeito Fernando Haddad do famoso toma lá dá cá, um dos piores e mais arraigados vícios da política brasileira. Mostram também as dimensões assumidas por ele – deverão ser ao todo 140 demitidos – e até onde vai a capacidade de dissimulação de Haddad, que se entregou a esse fisiologismo enquanto posava de bom moço e político moderno.

O Estado de S. Paulo

15 Maio 2016 | 03h00

O expurgo dos que não mais interessam ao prefeito começou com 86 servidores, seguidos de mais 32, dos quais 2 subprefeitos. Funcionários sem concurso público, eles podiam perder seus cargos a qualquer momento. A maior parte desses e dos que terão a mesma sorte foi indicada por vereadores para as Subprefeituras. Como isso ocorreu logo depois da frustrada tentativa de Haddad de levar a Câmara Municipal a aprovar projeto que regulamenta a atividade do Uber e de outros aplicativos que prestam serviços de transporte de passageiros – o que ele acabou fazendo por decreto –, tudo indica que esse foi o pretexto usado pelo prefeito para se vingar dos vereadores que não lhe foram fiéis.

Na verdade, o que está por trás das demissões é a decisão de Haddad de recompor sua base política de olho nas próximas eleições. Não por acaso, os demitidos são apadrinhados de vereadores pertencentes a partidos com os quais o prefeito sabe que não poderá contar para conseguir um novo mandato: PMDB (que terá Marta Suplicy como candidata), PSD (que concorrerá com Andrea Matarazzo), PSB, PTB, DEM e PP.

O jogo de cena para ocultar a impublicável razão das demissões é feito pelas duas partes. Os vereadores agora postos de lado fingem indignação e a maioria nega ter indicado quem quer que seja para ocupar cargos em comissão. É como se os antigos tivessem saído sabe-se, nomeados sabe-se lá por quê. E tenham perdido seus empregos também apenas por um capricho do prefeito. Alguns poucos, como uma vereadora ouvida pelo [BOLD]Estado[/BOLD] e que prefere manter o anonimato, apelam para o tom dramático: “Meu pai me ensinou que o que é acordado é o que está valendo, que palavra só existe uma. Fiquei muito surpresa com tudo isso e ainda vou decidir como reagir”.

Mais raros ainda são os que, também anonimamente, é claro, abrem o jogo: “Isso é uma declaração de guerra aos vereadores que votaram o tempo todo com o governo e agora estão sendo retaliados, porque seus partidos não apoiarão o prefeito. A base ([ITALIC]governista[/ITALIC]) na Câmara acabou”. E há os que prometem dar o troco com a criação de Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) sobre questões que podem deixar o governo em má situação, como o caso das denúncias de corrupção no Teatro Municipal.

Tudo isso só não é uma comédia, com pífios atores, tanto do lado do prefeito como dos vereadores dos quais ele agora quer distância, porque esse é mais um caso em que o suado dinheiro dos impostos dos paulistanos está escorrendo pelo ralo do fisiologismo.

Os demitidos certamente não farão falta à administração, porque foram nomeados por Haddad a pedido de vereadores nem um pouco interessados na eficiência dos serviços públicos, mas em ter neles combativos cabos eleitorais. Sua saída é um alívio para o Município, embora não tenha sido por esse motivo nobre que o prefeito os demitiu, mas por outro, bem rasteiro, que é o de se desembaraçar de aliados tornados incômodos. Em troca, enquanto durou o jogo, o prefeito teve “vereadores que votaram o tempo todo com o governo”.

Como em todo toma lá dá cá na administração pública, nesse loteamento das Subprefeituras promovido pelo atual governo só quem não ganha é a população, que paga a conta. Com ele, o velho e rançoso fisiologismo se torna um dos traços mais marcantes do governo Haddad.

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