O fluxo cambial em julho e algumas surpresas

A divulgação dos dados sobre o fluxo cambial ao longo do mês de julho mostrou diversas coisas surpreendentes.

, O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2010 | 00h00

Uma delas foi que, depois de três semanas de saldo continuamente negativo, o mês fechou com saldo positivo de US$ 712 milhões - ante um saldo negativo de US$ 4,279 bilhões no mês anterior. Convém notar que o fluxo comercial continuou negativo em US$ 777 milhões, em virtude de gastos com importação superiores à exportação. Assim, o saldo positivo se deveu basicamente ao das operações financeiras, num montante de US$ 1,490 bilhão, que durante três semanas havia sido negativo.

A rápida mudança no saldo das operações financeiras foi devida, principalmente, à entrada de divisas na Bolsa e ao recuo da posição vendida dos bancos.

As entradas pelo mercado financeiro somaram, em julho, R$ 28,655 bilhões e as saídas, US$ 27,166 bilhões. É importante notar que a Bovespa fechou julho com um saldo positivo de US$ 3,508 bilhões, e as entradas na Bolsa representaram 115% das entradas registradas no fluxo cambial. Isso mostra a fragilidade do sistema, muito dependente de operações por natureza voláteis, que visam a obter lucros que mais tarde serão enviados ao exterior.

A outra operação que contribuiu para o saldo financeiro do fluxo cambial - a posição vendida dos bancos - se reduziu de cerca de US$ 3 bilhões, após ter atingido o montante de US$ 12,950 bilhões no dia 22 de julho, o que havia deixado o mercado intrigado.

Com efeito, a posição vendida se verifica quando os bancos tomam dólares lá fora para vender ao Banco Central (BC) e aplicar os reais assim obtidos no mercado financeiro interno, com juros mais altos. É uma operação que parece indicar que os bancos apostam numa desvalorização do real, procurando ganhar nos juros brasileiros e no câmbio, quando reembolsarem os dólares que tomaram. Tudo indica que não estavam tão seguros sobre a desvalorização.

Esse panorama do fluxo cambial merece que seja assinalado que o Banco Central, diante de um fluxo positivo de US$ 712 milhões, comprou no mercado US$ 1,494 bilhão, ou seja, mais do que o fluxo cambial, visando a aumentar as reservas, mas, ao mesmo tempo, impedir maior desvalorização do real em relação ao dólar, o que, aliás, mostra que o Brasil não respeita tão firmemente o sistema de livre flutuação do câmbio.

É possível que o BC tenha considerado a futura entrada da colocação do bônus Global 2021, que garantiu uma captação de US$ 825 milhões.

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