O FMI e o poder dos bancos

Cuidado com os grandes bancos, alerta o Fundo Monetário Internacional (FMI). As maiores instituições financeiras estão maiores e mais poderosas do que eram até a crise de 2008, quando a quebra do Lehmann Brothers, nos Estados Unidos, desatou uma onda de quebras nos principais mercados do mundo rico e marcou o início da Grande Recessão. Governos do mundo rico gastaram montanhas de dinheiro em operações de salvamento, para limitar os estragos no sistema financeiro. Os bancos sobreviventes ficaram maiores, ocuparam mais espaço nos mercados e continuaram recebendo subsídios do setor público.

O Estado de S.Paulo

08 Abril 2014 | 02h08

A noção de bancos "grandes demais para quebrar", também conhecidos como "sistemicamente importantes", é "um dos legados mais perturbadores da crise financeira global", segundo os autores do relatório. O grau de concentração varia entre países e é menor no Brasil do que na maior parte do mundo desenvolvido. Mas em nenhum lugar as autoridades podem menosprezar o poder dos grupos financeiros e os perigos associados ao seu predomínio nos mercados.

Seis anos depois da quebra do Lehmann Brothers, o alerta do FMI pode parecer estranho. Passado o impacto inicial das quebras em série, os governos das maiores economias começaram a discutir reformas para o setor. Esse foi um dos grandes temas do Grupo dos 20 (G-20) nos últimos anos. A reforma deveria ser aplicável em todos os países, pelo menos em suas linhas principais, porque qualquer solução mais limitada seria pouco eficaz numa época de globalização da vida econômica e, especialmente, das funções financeiras.

A implantação de regras mais severas de capitalização e de controle de riscos seria parte da mudança. O Banco de Compensações Internacionais (BIS), com sede em Basileia, teria um dos papéis centrais. Mas seria preciso avançar em outras frentes - como a implantação, na zona do euro, de um sistema central de supervisão bancária e de liquidação de instituições insolventes.

O programa de reformas ainda está sendo executado e os autores do relatório do FMI reconhecem progressos, mas falta percorrer boa parte do caminho. Apesar dos progressos e da maior severidade das novas normas de Basileia, mercados bem mais concentrados do que eram até 2008 impõem desafios novos e mais duros aos governos. Deixar quebrar uma instituição de peso é muito mais fácil na retórica do que na prática. Seria muito bom poupar o dinheiro dos contribuintes e negar socorro a um grande banco, mas qual seria a consequência da quebra para o sistema, para a economia em geral e, enfim, para os mesmos cidadãos, agora considerados como poupadores ou como trabalhadores?

Nos principais países desenvolvidos e emergentes, os três maiores bancos concentram pelo menos 40% dos ativos. No Canadá, na França e na Espanha, a participação supera 60%. Na Alemanha, a concentração é próxima de 35%. No Brasil, onde os três maiores controlam cerca de 55% dos ativos bancários, o grau é bem maior que na China e na Índia e pouco superior ao da Rússia. Em 2008, os três maiores bancos brasileiros detinham 35% dos ativos. O crescimento ocorreu também na maior parte das economias desenvolvidas. A Itália é uma das exceções.

O esforço para manter os bancos em boas condições - excelentes, em muitos casos - tem custado muito ao setor público. Diversas formas de ajuda, como injeções diretas de recursos e garantias, custaram US$ 70 bilhões nos Estados Unidos, em 2012, e cerca de US$ 300 bilhões na zona do euro, segundo estimativas incluídas no relatório do FMI. Esse dinheiro é apresentado como subsídio implícito aos bancos. O subsídio distorce a competição, favorece a aceitação de riscos em excesso e impõe custos aos contribuintes.

No Brasil, a disciplina imposta aos bancos desde os anos 90 tornou mais seguro o sistema e protegeu-o do impacto da crise. O País também avançou na adoção das novas normas de Basileia. Mas seria um erro desprezar os riscos implícitos na elevada concentração.

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