O FMI fortalecido pelo G-20

A crise fez bem ao Fundo Monetário Internacional (FMI). Sua influência aumentou desde o estouro da bolha imobiliária, há quase dois anos, e os chefes de governo do Grupo dos 20 (G-20), reunidos em Londres, realçaram sua importância no combate à recessão e na prevenção de novos desastres financeiros. A curto prazo, caberá ao Fundo contribuir para a recuperação de economias em desenvolvimento atingidas pela crise e para o socorro aos países pobres. Um dos grandes emergentes, o México, já está na fila, pleiteando um financiamento de US$ 47 bilhões. Vários países da Europa Oriental, incluídas a Ucrânia e a Hungria, já recebem ajuda. Com objetivos mais duradouros, caberá à instituição um papel central no acompanhamento dos mercados e no acionamento do alerta em caso de perigo. Essa função será exercida em cooperação com o Conselho de Estabilidade Financeira, com representantes de todos os países do G-20, versão ampliada do antigo Fórum de Estabilidade Financeira. Esse papel de acompanhamento e de alerta será tanto mais importante quanto menor for a integração dos governos nacionais na regulação do sistema financeiro. Os americanos se opõem à criação de um organismo regulador internacional, proposto pelos europeus, e essa opinião foi reiterada na quinta-feira à noite pelo secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Timothy Geithner. Esta e outras divergências foram mais ou menos camufladas no comunicado oficial do G-20. A relutância das autoridades americanas em impor um controle muito mais severo ao setor financeiro foi confirmada, também na quinta-feira, pela aprovação de normas flexíveis para o registro de ativos podres. Por pressão de congressistas e do próprio banco central (o Federal Reserve), o Conselho de Padrões Contábeis consagrou a regra mais frouxa. Graças a isso, os bancos ficam desobrigados de contabilizar aqueles créditos pelo valor de mercado, hoje próximo de zero, e podem registrá-los de acordo com seu suposto valor em condições econômicas mais favoráveis. Isso aumentará contabilmente a lucratividade dos bancos. Não parece um bom começo para uma era de maior disciplina. O papel de acompanhamento e de alerta antecipado (early warning) havia sido recomendado ao Fundo, em outubro, pelo Comitê Monetário e Financeiro Internacional, o órgão politicamente mais importante, porque suas indicações são aprovadas pelos 185 países membros. O G-20 deu maior peso político a essa recomendação, por sua representatividade como fórum das maiores economias desenvolvidas e emergentes. O Fundo e o Conselho de Estabilidade Financeira são os organismos mais preparados - juntamente com o Banco de Compensações Internacionais, de Basileia - para o trabalho de acompanhamento e de alerta. Para cumpri-lo, precisarão não só de competência técnica - e isso não lhes falta -, mas de um esforço vocal bem maior que o costumeiro. Se não fizerem barulho suficiente, não poderão criar a coação necessária para os governos agirem. Será um desafio considerável para Dominique Strauss-Kahn, o diretor-gerente do FMI. Ele demonstrou grande habilidade política até agora, costurando o entendimento entre os governos mais importantes e preparando o terreno para a decisão do G-20. Algumas transformações em curso, como a reforma do sistema de cotas e votos, foram iniciadas por seu antecessor, Rodrigo de Rato, mas os dotes diplomáticos de Strauss-Kahn são bem superiores.A valorização do FMI, do Banco Mundial e da Organização Mundial do Comércio (OMC) tende a fortalecer o multilateralismo, ameaçado pelo impasse da Rodada Doha de negociações comerciais e, durante algum tempo, pelo desencontro das medidas anticrise nos Estados Unidos e na Europa. Alguns governos, como o brasileiro, têm atitudes ambíguas em relação ao multilateralismo. A retórica do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tende a valorizar a OMC e as Nações Unidas, mas não o FMI. O Fundo tem sido quase hostilizado na gestão do ministro Guido Mantega e o próprio presidente Lula mal parece ter superado seus preconceitos de sindicalista. Vale a pena, para os países em desenvolvimento, preservar o Fundo e trabalhar por seu aperfeiçoamento, muito mais do que depender direta e exclusivamente do mercado financeiro. Os mexicanos, mais uma vez, comprovam essa tese.

, O Estadao de S.Paulo

04 de abril de 2009 | 00h00

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