O futuro ameaçado

Poupa-se muito pouco no País. Na mais recente pesquisa sobre o tema feita pela SPC Brasil e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), 62% dos entrevistados disseram que não guardam dinheiro

O Estado de S.Paulo

06 Março 2017 | 05h00

Nem a persistência da crise, que faz crescer o desemprego, nem o avanço das propostas de reforma das leis trabalhistas e da Previdência, que pode afetar sua expectativa de renda, foram suficientes para levar o brasileiro médio a preservar uma parcela maior de sua renda para se proteger contra as incertezas no futuro. Poupa-se muito pouco no País. Na mais recente pesquisa sobre o tema feita pela SPC Brasil e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), 62% dos entrevistados disseram que não guardam dinheiro.

Na pesquisa – realizada em janeiro e que fará parte do primeiro número do Indicador de Reserva Financeira, boletim que as duas entidades passarão a divulgar mensalmente –, apenas 36% das pessoas ouvidas disseram manter o hábito de guardar uma parte de sua renda (2% não responderam às perguntas). Mas 29% preservam só o que sobra de seu orçamento e uma pequena fatia de 7% se programa para poupar um valor fixo por mês.

O quadro já foi pior. A mesma pesquisa constatou que, no mês anterior, a proporção dos que não conseguiram poupar nada era ainda maior: estavam nessa situação 75% dos entrevistados. É uma porcentagem muito alta, se se levar em conta que a pesquisa foi feita em dezembro, quando à renda normal dos assalariados é acrescido o 13.º salário.

Esses números foram fortemente afetados pela crise, que fez crescer o desemprego e reduziu o rendimento real médio das famílias, o que apertou ainda mais o orçamento familiar – com o aumento das dificuldades para honrar compromissos já assumidos – e, obviamente, afetou uma capacidade de poupança já historicamente baixa. Mas a pesquisa da SPC Brasil e da CNDL constatou que também famílias com renda mais alta pouparam menos no período, o que dá uma ideia da dimensão das dificuldades por que passam os brasileiros em geral.

Mesmo entre poupadores habituais, quase a metade (46%) teve de lançar mão de sua reserva financeira para cobrir despesas em dezembro. O dinheiro foi destinado ao pagamento de dívidas (13% dos entrevistados), despesas extras (11%), contas domésticas (12%), imprevistos (4%) e consumo (8%).

Dos que poupam habitualmente, a maior parte procura formar uma reserva financeira contra imprevistos, como doenças ou mortes (43%) e desemprego (31%). Outros poupam para assegurar um futuro melhor ou para realizar um sonho de consumo.

Dados mais recentes sobre o hábito e a capacidade de poupança dos brasileiros mostram que um quadro historicamente ruim ficou ainda pior com a duração e a intensidade da crise em que a irresponsabilidade político-administrativa das gestões lulopetista deixou o País.

Governos perdulários, como foram os chefiados pelo PT, dão péssimo exemplo à população. A gastança na administração pública é um forte estímulo para que também as pessoas gastem. Mas as administrações lulopetistas foram além, criando fortes estímulos – facilidade de crédito e redução de tributos, entre outras medidas – para aumentar o consumo e alimentar na população a falsa sensação de que a posse de bens materiais era garantia de bem-estar perene. Sem poupança suficiente, indispensável para o investimento produtivo, o crescimento acabaria sendo comprometido, como acabou ocorrendo a partir do segundo semestre de 2014.

Um estudo publicado pelo Banco Central em 2015 – o Relatório de Inclusão Financeira – mostrou que 84,5% dos brasileiros adultos tinham algum relacionamento com instituições financeiras, mas somente 12% tinham conta de reserva financeira, índice menor do que o observado na Índia (14%), Rússia (16%), África do Sul (33%) e China (41%), países que, com o Brasil, compõem o Brics. O alto índice de poupança na China é explicado pelo fato de os chineses não disporem de cobertura de serviços sociais básicos, entre eles aposentadoria, e, por isso, precisam ter reservas para o futuro. Os dados relativos ao Brasil dão a impressão de que o futuro não preocupa a população.

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