O futuro ameaçado

Para milhões de jovens brasileiros, o futuro pode não ser melhor do que o presente; em muitos casos, poderá ser até pior

O Estado de S.Paulo

09 Março 2018 | 03h00

Para milhões de jovens brasileiros, o futuro pode não ser melhor do que o presente; em muitos casos, poderá ser até pior. A ameaça que paira sobre mais da metade dos jovens entre 19 e 25 anos de idade foi apresentada de maneira clara em estudo recém-divulgado pelo Banco Mundial. Nele a instituição aponta os principais desafios que os jovens brasileiros precisam superar para obter melhores qualificações profissionais e para que o mercado de trabalho do País alcance níveis mais altos de produtividade. São questões que, se não enfrentadas adequadamente, podem afetar negativamente a vida de cerca de 25 milhões de jovens, condenando parte deles à pobreza, e comprometer a competitividade e o crescimento da economia brasileira nos próximos anos.

De acordo com o estudo Competências e Empregos: Uma Agenda para a Juventude, 52% da população jovem do Brasil não está ou corre o risco de não estar adequadamente inserida na vida econômica. Entre eles estão aqueles que não estudam nem trabalham, chamados de geração “nem-nem”, formada por cerca de 11 milhões de jovens.

O grupo inclui também os que estudam, mas cursam séries que, pela idade, já deveriam ter cursado. São a maioria dos jovens estudantes, pois, em 2015, segundo o Banco Mundial, apenas 38% dos adolescentes estavam na série correta para sua idade e mais de 13% já haviam parado de estudar. Por fim, a população dos jovens cujo futuro está ameaçado é formada por aqueles que trabalham, mas estão no mercado informal, no qual as exigências de qualificação são menores e a remuneração e as condições de trabalho são piores do que as do mercado formal.

É uma população vulnerável, que terá mais dificuldades para encontrar emprego e está sujeita a maiores riscos de cair na pobreza, observou o diretor do Banco Mundial para o Brasil, Martin Raiser. Isso dá a dimensão social do problema que o País terá no futuro caso não enfrente já essa questão.

Há ainda a dimensão econômica. O jovem de hoje é o trabalhador de amanhã, e dele dependerá, portanto, o desempenho futuro da economia. A despeito da universalização do ensino fundamental e da promoção do acesso ao ensino médio, “persistem muitas preocupações com a qualidade da educação e a relevância das competências que os estudantes estão adquirindo”, adverte o trabalho do Banco Mundial.

Competências como conhecimento geral, capacidade de interagir socialmente e conhecimento e experiência para realizar tarefas, essenciais para o desempenho profissional adequado, tornam-se ainda mais necessárias no mundo cada vez mais digitalizado. Mas, apesar de mudanças recentes que aperfeiçoaram o sistema educacional, “o Brasil está enfrentando uma crise de aprendizagem”, observa o estudo.

Apesar de gastos substanciais com educação e altos índices de matrícula, os jovens não estão adquirindo competências que lhes permitam tornar-se trabalhadores competitivos. “Precisamos de uma educação de qualidade que cumpra sua missão de dar competência aos jovens”, disse ao Estado a economista Rita K. Almeida, uma das responsáveis pelo relatório do Banco Mundial.

Soma-se a isso o fato de que está se esgotando a vantagem demográfica de que o Brasil desfrutou por um longo período. Trata-se do período em que a parcela da população ativa era substancialmente maior do que a das crianças e dos idosos. A população brasileira envelhece e atinge padrões demográficos de nações desenvolvidas, mas sua economia está longe dos índices de produtividade e renda ostentados por aquelas nações há muito tempo. E, pelos dados presentes, não terá população com capacidade produtiva e em número proporcionalmente adequado para alcançar os índices dos países ricos.

Reformas no mercado de trabalho – parte das quais já aprovada – continuam necessárias, para assegurar maiores condições de acesso ao emprego pelos jovens. Um sistema de ensino que prepare adequadamente os jovens para as novas exigências do mundo de trabalho é igualmente urgente.

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