O futuro de uma desilusão

Antes que o improvável leitor pergunte se desilusões têm futuro, e desde quando, talvez seja mais ajuizado tratar inicialmente das ilusões. Estas, sim, têm futuro promissor (em mais de um sentido). Para encontrá-lo e conhecê-lo um pouco melhor devemos viajar ao passado, pois é lá que ele começa.

* EUGÊNIO BUCCI, O Estado de S.Paulo

17 Setembro 2015 | 02h54

Façamos a viagem pelo roteiro mais seguro (e mais óbvio): o livro O Futuro de uma Ilusão, que Sigmund Freud escreveu em 1927. A leitura é prazerosa até hoje. Freud acreditava que a civilização reduziria gradativamente a influência dos deuses sobre a Terra. Afirmava que todas as religiões eram ilusões infantis – ainda que muito eficazes para dar conforto psíquico aos homens assombrados pelo desamparo e pela morte – e, como ilusões, deveriam ser vencidas. “Os homens não podem permanecer crianças para sempre”, escreve o médico psicanalista, convencido de que a humanidade seria menos infantil e menos neurótica se fosse menos religiosa.

O leitor de O Futuro de uma Ilusão se vê convidado a imaginar um mundo sem altares e sem paraísos celestiais, como viria a cantar John Lennon, algumas décadas mais tarde. Freud contenta-se com outro poeta. Nas páginas finais, cita dois versos de Heinrich Heine: “Nós deixaremos o céu/ Para os anjos e os pardais”. Deixando o céu, deixaríamos as ilusões para lá e apostaríamos na civilização, a utopia freudiana.

Freud acertou ou errou? Nem uma coisa, nem outra. Por vezes, olhando as guerras entre fundamentalismos extremistas, temos a impressão de que errou. Mas no chamado mundo democrático o balanço é menos negativo. Depois do trauma da 2.ª Guerra o Estado de Direito se fortaleceu e ficou mais inclusivo, mais impessoal e mais laico. Nas sociedades livres os agnósticos já não são estigmatizados como antes e, de modo geral, as pessoas convivem melhor com a “sensação de insignificância ou impotência diante do universo”, sem ter de ir à igreja em busca de alívio. A religiosidade já não se baseia em “pontificar” sobre isso e aquilo e ninguém mais causa escândalo se disser que Deus não existe. De todo modo, a humanidade ainda não desocupou o céu “para os anjos e os pardais”. O futuro da tal ilusão continua sendo uma questão em aberto – divinamente aberta por Freud.

Isto posto, voltemos ao Brasil, onde o céu é do urubu. Aqui, a laicidade nunca foi esporte nacional. Nossos ateus mais ousados são aqueles que juram em prosa e verso ter visto milagres incríveis na Bahia de todos os santos. O problema civilizatório destas terras não passa pelo declínio das ilusões religiosas. Passa antes por saber o que virá depois da grande desilusão política que nos pegou por traição.

Nossa desilusão sobreveio à morte de uma utopia. Não era uma utopia grandiosa e universal como a ideia de uma “civilização adulta”, mas também foi arrebatadora: reduzir as desigualdades sociais do Brasil, a partir de um projeto político igualitário, democrático e libertário, que gerasse um novo modelo de desenvolvimento econômico, social e humano. Foi então que a utopia se esboroou como se nunca tivesse passado de farsa. Desmantelou-se. A utopia petista dos anos 80 e 90, que ingressou no século 20 como a esperança que venceria o medo, agora sai de cena sem honra e sem elegância. O burlesco se confunde com o trágico, heróis se revelam palhaços, a epopeia se dissolve em bazófia.

A desilusão é tamanha que faz corar até os adversários. Ninguém, nem os antagonistas mais raivosos, desejava um ocaso tão degradante para uma promessa que tinha sido tão bonita. O apagar da estrela desmotiva a Nação inteira. Uns ainda tentam gritar: “Eu avisei!”. Não adianta. São bufões, como os demais, no meio da rua.

A notícia não seria tão ruim se estivéssemos vivendo um epílogo, mas o infortúnio não acaba aqui. Não estamos lidando com uma desilusão qualquer, dessas que só têm passado. Diante dela, não basta perguntar: “Como fui me iludir?”. O maior problema é o que ainda está por vir. A utopia morta ainda vai ainda ficar por aí, ocupando o espaço (não apenas o céu) por um bom (mau) tempo. O pior é que essa é uma desilusão que tem futuro.

E seu futuro não vai ser luminoso. Trará a recidiva das mentalidades mais atrasadas, que aprisionaram por tanto tempo a sociedade brasileira à selva, à lei do mais forte travestida de norma institucional. Vai fazer com que o preconceito de que um presidente sem diploma só poderia conduzir o País à corrupção adquira o estatuto de verdade testada e comprovada. Os porta-vozes do reacionarismo vão dizer, com escárnio, que o líder operário não fez bobagem na entrada, mas estragou tudo na saída. Vão dizer que a esquerda é a mãe de toda a corrupção e, embora a História do Brasil exponha com fatura a corrupção da direita e das oligarquias feudais, será difícil mostrar que estão errados.

Mas o pior, o pior de tudo, é que a culpa pelo futuro que terá muito de treva, insensibilidade e violência – além de um grave estreitamento das alternativas políticas – não poderá ser imputada aos reacionários ou aos supostos golpistas. Não. A culpa é dos assassinos da velha utopia, que não são outros senão alguns de seus primeiros profetas. Eles a mataram com suas próprias mãos – leves.

Estes ainda tentarão sobreviver à sombra do imenso cadáver ideológico que fabricaram, inventando falsos inimigos e falsas divindades. Tentarão, como já vêm tentando, erguer uma religião política para substituir a utopia que mataram. Vão se converter em mercadores de ilusões, ilusões religiosas da pior espécie, puro charlatanismo populista, sem nenhum laço com a experiência concreta dos seres humanos.

O futuro dessa desilusão brasileira será, por fim, o fanatismo vulgar, que então se dissolverá sem dor. A travessia será bíblica, eis o toque de ironia, mas não haverá nenhum Moisés a conduzi-la.

Um Michel Temer, será? Ou, quem sabe, os pardais?

* EUGÊNIO  BUCCI É JORNALISTA, É PROFESSORDA ECA-USP

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