O G-20 e a virtude alemã

Virtude em excesso pode ser um grave problema. Uma onda de austeridade fiscal varre a Europa, depois da desastrosa farra dos últimos dois anos. Se todos os países do mundo rico apertarem o cinto, quem vai sustentar a recuperação da economia global e evitar uma nova queda na recessão? Resolver esse problema é o novo desafio para os governos dos países mais avançados, às vésperas de mais um encontro de cúpula do Grupo dos 20 (G-20). A recuperação é desigual e frágil e o desemprego em muitos países continua em níveis inaceitáveis, segundo o rascunho de um documento preparado para o encontro. O texto foi divulgado em Washington por meio de um vazamento. A indiscrição quase certamente não foi acidental.

, O Estado de S.Paulo

25 Junho 2010 | 00h00

Por enquanto, os grandes países emergentes, como Brasil, China e Índia, têm dado a contribuição mais importante para animar o comércio internacional. A economia americana também voltou a crescer, mas em ritmo ainda moderado, e tem pouco espaço para expandir o gasto federal sem agravar seriamente os problemas do Tesouro.

Entre as grandes potências, a Alemanha é neste momento a mais capacitada para ajudar na recuperação global. Mas o governo da primeira-ministra Angela Merkel tem rejeitado esse papel.

O recém-eleito governo britânico anunciou na segunda-feira um duro plano de ajuste. O plano inclui um corte anual de gastos correntes de 30 bilhões de libras até o exercício fiscal de 2014-2015. Segundo o ministro de Finanças, George Osborne, a projeção oficial de crescimento econômico foi reduzida de 1,3% para 1,2% neste ano e de 2,6% para 2,3% em 2011. Além de gastar menos, o governo deverá aumentar a arrecadação de impostos.

Os governos de Portugal, da Espanha e da Grécia já haviam apresentado suas políticas de ajuste. Além da redução imediata dos gastos públicos, os planos contêm mudanças nos padrões da previdência social. Todos esses acertos vinham sendo cobrados. No caso da Grécia, foram a condição principal para a ajuda conjunta prestada pelos demais países da União Europeia e pelo FMI. A surpresa desagradável ocorreu quando o governo da Alemanha, o país europeu em melhor condição fiscal, decidiu também apertar o cinto, lançando um programa de redução de despesas de 80 bilhões em quatro anos. O impacto econômico será menor do que parece à primeira vista, dizem alguns economistas alemães, apoiando o governo. Mas não é tão fácil tranquilizar os estrangeiros.

No meio da crise, a Alemanha se manteve superavitária no comércio internacional. Mesmo com os incentivos concedidos aos bancos e à indústria durante a recessão, o consumo se manteve moderado, a produção continuou altamente competitiva e o país manteve a posição dominante no comércio com a maioria dos parceiros europeus.

Desde a irrupção da crise grega, alguns comentaristas econômicos advertiram: não haverá ajuste para valer na Europa enquanto a demanda na Alemanha continuar contida e o país mantiver um elevado superávit comercial, deixando pouco espaço para o aumento da produção e da exportação dos demais países.

No fim da semana passada, o banco central chinês prometeu tornar mais flexível sua política de câmbio, abandonando o vínculo entre o yuan e o dólar, adotado em 2008. A maioria das potências comerciais acusa a China, há anos, de manter sua moeda artificialmente depreciada para tornar a produção chinesa mais barata e mais competitiva. Com a mudança da política, o yuan poderá valorizar-se, apostam os mais otimistas.

Com essa iniciativa, as autoridades de Pequim talvez fiquem menos expostas às costumeiras pressões, pelo menos por algum tempo. Se isso se confirmar, o alvo principal das cobranças, no encontro de cúpula do G-20, será a primeira-ministra alemã.

Quando se fala em reequilíbrio do comércio global, em geral se pensa imediatamente na China como a grande potência superavitária, beneficiada por um câmbio depreciado e por outros fatores menos claros de competitividade. A cobrança agora se dirige também à Alemanha. Sua contribuição pode ser maior para a recuperação da Europa e também, direta e indiretamente, para a reanimação da economia mundial.

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