O G-20 e o novo nacionalismo

Oito anos depois de iniciada a maior crise econômica e financeira desde os anos 1930, o populismo, o nacionalismo e o protecionismo ameaçam o sistema comercial

O Estado de S.Paulo

15 Março 2017 | 03h00

A incerteza política assombra as economias mais importantes do mundo às vésperas da reunião ministerial do Grupo dos 20 (G-20), marcada para sexta-feira e sábado em Baden-Baden, na Alemanha. Oito anos depois de iniciada a maior crise econômica e financeira desde os anos 1930, o populismo, o nacionalismo e o protecionismo ameaçam o sistema comercial, a globalização e uma das mais notáveis experiências de integração regional, a União Europeia. A crise diplomática entre Holanda e Turquia, a aproximação do Brexit, a força da extrema direita nas campanhas eleitorais holandesa e francesa e as promessas de mudanças do presidente americano Donald Trump compõem, neste momento, a parte mais visível do cenário de insegurança – ao lado, é claro, de fatores como o terrorismo e a guerra civil na Síria.

Ameaças desse tipo, empacotadas com o rótulo geral de “riscos geopolíticos e outros fatores não econômicos”, têm aparecido com destaque nas análises do Fundo Monetário Internacional (FMI). De novo aparecem, agora, no documento sobre perspectivas e desafios globais preparado para o encontro de ministros de Economia do G-20. O relatório, com 13 páginas de texto e tabelas, apresenta um cenário geral de melhora econômica neste ano e de incertezas e riscos importantes no médio prazo.

As perspectivas do curto prazo refletem um aumento de atividade no mundo avançado, embora com crescimento ainda abaixo do potencial em alguns países, como França, Itália e Coreia. Nos Estados Unidos a economia opera perto do pleno-emprego, mas pode ser impulsionada pela política orçamentária expansionista prometida pelo novo presidente.

A contrapartida poderá ser um aperto mais veloz da política monetária, com juros maiores no mercado internacional e financiamento mais difícil para o Brasil e outros emergentes. A China deve manter um forte crescimento, ainda na transição para um modelo menos dependente de exportação e investimento e mais lastreado no mercado interno. O Brasil e a Rússia devem voltar a crescer, depois da recessão. As taxas de crescimento previstas ainda são as da atualização de janeiro, com expansão de apenas 0,2% prevista para o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. Novas projeções devem aparecer na reunião de primavera do FMI, prevista para abril. Mas a maior parte da análise é atual e as informações mais atualizadas de diversas fontes encaixam-se bem no cenário.

A médio prazo o crescimento global pode ser prejudicado por fatores econômicos, em boa parte remanescentes da crise iniciada em 2008, e por problemas de outra natureza, principalmente políticos. No mundo rico, a sustentação do crescimento dependerá em boa parte da manutenção de estímulos fiscais e monetários, da conclusão de reformas há vários anos incluídas na pauta (das normas trabalhistas, por exemplo) e de políticas destinadas a reduzir as desigualdades. Isso inclui mudanças fiscais e tributárias, de elevação dos salários mínimos e de inclusão dos imigrantes no mercado de trabalho.

A lista de recomendações vai claramente na direção oposta às das propostas populistas e nacionalistas, contrárias à maior integração comercial e à absorção dos migrantes. Também será preciso reduzir vulnerabilidades, como a exposição dos bancos a calotes (principalmente na Europa) e o endividamento de empresas. Em outros documentos, economistas do FMI têm chamado a atenção para as dívidas muito altas – e perigosas – de algumas companhias brasileiras. Em relação ao Brasil, nenhuma novidade importante nesse novo relatório: a ênfase continua no conserto das contas públicas.

Em conjunto, os países do G-20 poderão, segundo o documento, promover soluções multilaterais para maximizar os ganhos da integração e criar defesas contra riscos globais. A recomendação é tão óbvia quanto contrária ao novo discurso populista e nacionalista. O G-20 foi importante na articulação de políticas nos primeiros anos da crise financeira. O novo desafio, manter a integração e a cooperação contra o novo nacionalismo, pode ser muito mais difícil.

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