O ganho real do trabalhador

Com mais emprego e mais dinheiro no bolso, o trabalhador brasileiro teve bons motivos para celebrar o crescimento econômico do ano passado - 7,5%, segundo a primeira estimativa divulgada pelo governo. Houve aumento real de salário em 88,7% das 700 negociações acompanhadas em 2010 pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). Foi a maior porcentagem de acordos com aumento real observada em toda a série iniciada em 1996. O consumo privado cresceu 7% no ano passado, impulsionado pelo aumento de 17,6% do saldo das operações de crédito a pessoas físicas e pela expansão da massa de salários - de 8,2% reais, isto é, além da inflação.

, O Estado de S.Paulo

22 Março 2011 | 00h00

Os números divulgados na sexta-feira pelo IBGE acrescentam um detalhe importante a esse quadro e ajudam a entender não só a evolução da economia no ano passado, mas também a persistência de um consumo vigoroso no começo deste ano, depois de medidas oficiais de restrição ao crédito.

O ganho real obtido em 2010 pela massa de trabalhadores foi maior que o dos dois anos anteriores e também isso contribuiu, certamente, para a elevação do consumo. Houve aumento real superior a 3% em 106 negociações, 15% do total. Em 2008 esse ganho ocorreu em 29 acordos, 4% do total. Em 2009, o número de casos chegou a 37, ou 5% do painel. O número de acertos com ganho acima de 5% também cresceu - de apenas 2 em 2008 para 10 em 2009 e 28% em 2010 (4% do conjunto).

Esses dados claramente refletem o aumento do emprego. Foram contratados, em termos líquidos, 2,55 milhões de trabalhadores com carteira assinada no ano passado, segundo o Ministério do Trabalho.

O otimismo das empresas traduziu-se em novo aumento das contratações. O total havia chegado a 1,45 milhão em 2008 e recuado para 995 mil no ano seguinte - um resultado nada mau, apesar da crise.

O amplo aumento real de salários ocorreu de forma generalizada nos grandes setores de atividade tipicamente urbana, de acordo com o Dieese: 95,7% dos acordos no comércio, 90,5% das negociações na indústria e 82,8% dos acertos nos serviços. Além disso, os aumentos acima da inflação foram registrados em todo o País. Em nenhuma região a massa dos salários ficou estagnada ou encolheu no ano passado, segundo o levantamento recém-divulgado.

Os trabalhadores vêm acumulando ganho real há alguns anos. Entre 2008 e 2010, o aumento superou a inflação em 88,6% das negociações analisadas pelo Dieese. Em quase metade das negociações (49,7%), a elevação real acumulada no período ficou acima de 3%. Em pouco mais de um terço, 36,6%, o aumento ficou mais de 4% acima da inflação medida pelo INPC.

Neste ano, o consumo continua em expansão, segundo os dados conhecidos até agora. Analistas e empresários têm falado sobre desaceleração das atividades, mas os sinais não são claros. Os efeitos do aperto monetário podem ter ocorrido em alguns setores ou subsetores, mas não há indício de uma perda geral de dinamismo.

O último Índice de Atividade Econômica do Banco Central (BC) apontou uma aceleração da economia em janeiro. O indicador apurado foi 0,7% maior que o de dezembro e 4,5% maior que o de um ano antes. Em 12 meses o aumento acumulado chegou a 7,4%. Mantido esse ritmo, a economia brasileira crescerá mais de 8,5% neste ano.

O Ministério da Fazenda, no entanto, projeta um crescimento econômico de 5% para 2011. Economistas do mercado financeiro e de consultorias independentes têm calculado taxas pouco inferiores a 5%. Na avaliação do BC, a expansão ficará abaixo de 4,5%.Provavelmente será necessário um aperto maior para frear a atividade.

O BC poderá aumentar os juros pelo menos mais uma vez e adotar novas medidas de arrocho do crédito. O Executivo terá de ser mais drástico na contenção do gasto, se quiser esfriar a economia. No primeiro bimestre foram criados, em termos líquidos, 448.742 empregos com carteira assinada. Isso não indica uma economia desacelerada.

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