O gargalo dos aeroportos

Está tudo atrasado no Brasil para a realização da Copa do Mundo em 2014, como alerta a Fifa. Cada uma das condições para a realização do evento ? estádios, sistemas de transporte e de telecomunicações, rede hoteleira ? apresenta problemas. O gargalo mais sério está na infraestrutura aeroportuária, como têm insistido Jérôme Valcke, secretário-geral da entidade, e Ricardo Teixeira, presidente da CBF. Os aeroportos do País teriam de praticamente dobrar a sua capacidade em curto espaço de tempo, segundo estima a Associação Brasileira de Aviação Geral (Abag), para que possam proporcionar meios adequados para o deslocamento das equipes de futebol que participarão do torneio e sua entourage, assim como de turistas nacionais e estrangeiros.

, O Estado de S.Paulo

17 Julho 2010 | 00h00

Dadas as dimensões do Brasil, foi acertada a decisão de dividir o território em quatro áreas, pelas quais serão distribuídos os grupos de seleções, de modo a evitar que as delegações e torcedores sejam obrigados a voos de longa duração. Se isso ameniza as dificuldades dos usuários, o que se pergunta é se haverá tempo suficiente para que as obras sejam concluídas nos aeroportos e seus acessos, ainda que sejam investidos R$ 5,4 bilhões em 16 aeroportos vinculados às 12 cidades que sediarão os jogos da Copa, como promete a Infraero.

Como são necessários até seis anos para construir um novo aeroporto de classe internacional, a solução é ampliar os existentes e adaptá-los às circunstâncias. A Infraero, por exemplo, já licitou a construção do 3.º terminal do aeroporto de Cumbica. A previsão da estatal é de que 40% das obras fiquem prontas a tempo para a Copa. O restante só estará disponível em junho de 2016. Para sanar a deficiência, vão ser construídos três módulos operacionais provisórios, o primeiro dos quais deve ser entregue em dezembro.

Outros aeroportos poderão também utilizar tais módulos enquanto as construções definitivas não ficam prontas. Mas isso está ainda em estágio de projeto. Segundo levantamento do Sindicato da Arquitetura e da Engenharia, com exceção dos aeroportos do Rio (Galeão), Salvador, Recife e Natal, obras estão em atraso, pelo cronograma estabelecido pela Infraero, nos aeroportos de São Paulo (Cumbica), Brasília, Belo Horizonte (Confins), Curitiba, Porto Alegre, Fortaleza, Manaus e Cuiabá. Isso para ficar apenas nos terminais das cidades que sediarão os jogos e que, em alguns casos, não contam ainda nem mesmo com um projeto básico de reforma. Não foram mencionados outros aeroportos que também serão afetados pelo movimento da Copa, como Congonhas e Viracopos, em São Paulo, o Santos-Dumont, no Rio, e o de Goiânia.

A maioria dos grandes aeroportos não tem capacidade para atender aos picos de demanda e alguns já estão visivelmente saturados. A situação se agravou com o crescimento da economia, que tem reflexo direto sobre o transporte aéreo de passageiros. De acordo com estudo do Ipea, se o PIB aumentar a uma taxa média de 3,5% por ano nas próximas duas décadas, a demanda por transporte aéreo doméstico deve elevar-se a uma taxa média anual de 9%.

O aumento das viagens internacionais feitas por brasileiros e o crescimento, em menor escala, do turismo estrangeiro no País são outro fator a considerar. Com a Copa, tudo se complicará. O Ministério do Esporte estima que 600 mil turistas visitarão o Brasil por ocasião da Copa e, naturalmente, milhões de brasileiros se deslocarão de uma cidade para a outra em função do evento. Não se pode ignorar igualmente a aviação executiva, que também exigirá pistas e estacionamentos adequados.

Presume-se que a realização da Copa, assim como da Olimpíada de 2016, resulte em benefícios permanentes para a população em termos de infraestrutura e que fortaleça a imagem do País no exterior. Para que isso ocorra, os órgãos envolvidos ? Infraero, Anac, Ministérios das Cidades e da Defesa, Ibama, etc. ? terão de agir desde já de forma coordenada, para que pelo menos os prazos finais acertados com a Fifa sejam cumpridos. É preciso, em suma, planejamento. Os problemas são muitos e não se resolvem com bazófia.

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