O grande baile da latinidad

Alguns chamam de integração regional, mas parece mais um baile animado por muita rivalidade e muito esforço de sedução. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva passará a próxima semana visitando o México, Honduras, a Nicarágua, a Jamaica e o Panamá. Chegará domingo à capital mexicana, três dias depois de o presidente argentino, Néstor Kirchner, ter regressado a Buenos Aires. Kirchner, na segunda, receberá o presidente venezuelano Hugo Chávez para acertar mais um empréstimo ao Tesouro argentino e um acordo de cooperação energética.O presidente argentino assinou com o colega mexicano, Felipe Calderón, um acordo de associação estratégica. Os dois combinaram a troca de apoios para a ocupação rotativa de uma cadeira no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas. Ambos têm recusado, até agora, apoiar a pretensão brasileira a um lugar permanente no Conselho. Kirchner aproveitou a visita para defender o ingresso do México no Mercosul. Seria, segundo ele, um passo "essencial" para o bloco sul-americano. "Nós vemos com bons olhos o esforço e a liderança da Argentina no Mercosul", respondeu Calderón, sem se comprometer com a aceitação do convite. Kirchner e o antecessor de Calderón, Vicente Fox, haviam tido um entrevero durante a Cúpula das Américas de 2005, realizada na Argentina. Fox apoiava a tentativa do presidente americano, George W. Bush, de ressuscitar a Alca. Calderón tem mostrado interesse em reaproximar o México da América do Sul e tem procurado agradar tanto ao governo brasileiro quanto ao argentino. Neste momento, o principal interesse do Brasil em relação ao México é aprofundar os dois acordos de complementação econômica atualmente em vigor. No encontro empresarial Brasil-México, realizado em São Paulo em julho, o governo brasileiro anunciou a intenção de duplicar até 2010 o fluxo comercial entre os dois países, de US$ 6,7 bilhões em 2006. No ano passado, o Brasil exportou US$ 5,56 bilhões para o mercado mexicano e importou US$ 1,15 bilhão. A corrente de comércio entre os dois países mais que duplicou entre 2002 e 2006 e há muito espaço para a ampliação das trocas, mesmo sem o ingresso do México no Mercosul. Aliás, para o governo brasileiro, esse ingresso é impossível porque o bloco sul-americano é uma união aduaneira e o México já é sócio de uma área de livre-comércio, o Nafta, juntamente com Estados Unidos e Canadá.Para o governo argentino, a inclusão do México no bloco sul-americano poderia ser mais uma forma de reduzir a influência do Brasil. Mas essa é uma influência já contestada, na prática, por meio da aliança entre Argentina e Venezuela. O governo venezuelano tem sido o grande refinanciador da dívida pública argentina. O presidente Hugo Chávez deverá confirmar, na próxima visita a Buenos Aires, a compra de mais US$ 1 bilhão de papéis do Tesouro argentino, metade imediatamente e metade no prazo de um mês. Os dois presidentes, além disso, tentarão revigorar o projeto de construção do Gasoduto do Sul. Essa idéia, disse Chávez há poucos dias, "esfriou" nos últimos tempos. Mas o baile da América Latina segue animado também noutras áreas do grande salão. O governo chileno acaba de propor um plano de integração energética à Bolívia, com possível extensão do convite ao Equador, ao Peru e à Colômbia. Seria um anel energético andino e basta essa referência para indicar a exclusão do Brasil. O governo chileno está quase em pânico diante do risco de escassez de energia. Seu principal fornecedor de gás, a Argentina, também está em crise e reduziu o suprimento já insuficiente. Desde a guerra no século 19, quando a Bolívia perdeu a saída para o Pacífico, as relações entre os dois países têm sido difíceis. O governo boliviano certamente não aceitará a proposta chilena sem antes consultar os vizinhos e andinos e sem ouvir os conselhos do presidente Chávez, guru de Evo Morales. Em todo esse jogo, a disputa por influência regional e pela defesa dos interesses nacionais é muito mais evidente que quaisquer esforços de integração efetiva. O governo brasileiro talvez conserve alguma ilusão de liderança, mas está sendo forçado, cada vez mais, a batalhar duramente, no campo diplomático, para não ficar acuado por uma rede de acordos e alianças estranhas a seus interesses.

O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2002 | 00h00

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.