O impeachment desnudo

O processo de impeachment é insólito, esdrúxulo até. Todos os anteriores presidentes da República usaram as mesmas “pedaladas fiscais” de Dilma Rousseff sem que, por isso, cometessem crime de responsabilidade. Por que, então, multidões foram às ruas pedindo o impedimento da presidente?

Flávio Tavares*, O Estado de S.Paulo

18 Abril 2016 | 03h00

As “pedaladas” são a justificativa formal, mas as ruas se encheram por outro motivo.

A antipatia que o estilo presunçoso do PT acirrou na sociedade brasileira, ao se dizer acima de tudo e de todos, explica tudo. Quando Lula da Silva disputou a primeira eleição, em 1989, os chefes petistas pareciam ter inventado o Brasil. Só eles conheciam os problemas e a solução. Lula era um redivivo Pedro Álvares Cabral descobrindo a Nova Terra.

Essa visão mágica se multiplicou após o triunfo e passou aos militantes e eleitores, que de boa-fé os seguiram. Os chefes do PT ignoraram as lutas sociais do passado. Desprezaram, mais do que tudo, a esquerda – dos socialistas e socializantes aos anarquistas e comunistas. Faziam mofa da legislação trabalhista e da infraestrutura industrial surgida a partir de 1930. Riam com sarcasmo da visão liberal de liberdade política.

Lembram-se de 1988? Lula e demais deputados do PT não queriam assinar a nova Constituição que sepultou, formalmente, a ditadura.

Os petistas reivindicavam e denunciavam e, nisso, prestaram grandes serviços ao País. Mas não se escoraram em nenhuma doutrina política ou projeto de Estado e sociedade. Para quê? Eles eram infalíveis lutadores sociais, honestos e incorruptíveis e nos levariam à Canaã bíblica com rios de leite e mel!

No poder, porém, lambuzaram-se com outro mel.

A posse de Lula na Presidência emocionou até os que nele não votaram. O retirante nordestino mostrava que a obstinação é artífice da História. Numa República de bacharéis e banqueiros, ou num país de generais-ditadores, um trabalhador iria armar (ou tornear) um país novo.

No poder, o hábil e sagaz (mas primário) Lula copiou o que o País tinha de pior em termos éticos. Imitou a simulação política inventada na ditadura. O assistencialismo demagógico da Bolsa Família tornou-se única visão de Estado. O apelo ao consumo multiplicou o lucro dos bancos. A indústria nacional desapareceu, acossada pelas multinacionais que se lambuzaram no “dólar barato” e compraram o que era nosso. A defesa do meio ambiente foi relegada a plano secundário. O ensino superior privado passou a empresas estrangeiras com cotação na Bolsa.

O escândalo do mensalão mostrou o veneno da jararaca, mas Lula se reelegeu. Depois elegeu Dilma, que salvara o segundo mandato lulista. Mas, aí, o PT e a correta e organizada Dilma Rousseff já se haviam lambuzado na doçura da aliança com o PMDB. Michel Temer guiava o partido que reúne todas as cores, até as indefinidas.

O governo Dilma ficou nas mãos do PT e do PMDB. O vice Michel Temer, mudo acompanhante eleitoral de Dilma, chegou a coordenador político da presidente. Surgiu a “base aliada”, com 11 partidos. Mas era base alugada, ávida por ministérios e outros penduricalhos repartidos a caçadores de votos sem compromissos, a não ser a cobiça pelo quinhão do poder.

Assim, o impeachment é só um episódio isolado no contexto geral da política. Resolvida a questão, o tema se esgota, mas a política e a vida não se alteram.

Ficam os mesmos partidos, os mesmos parlamentares e chefetes, muitos envolvidos em escândalos ou denunciados por corrupção, como o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, que comanda a derrubada da presidente. Inertes ante os problemas da Nação, hábeis demagogos seguirão guiando o sistema partidário pelo oportunismo e pela corrupção pessoal.

Por isso, o que chama a atenção na pendenga do “sai Dilma” ou “fica Dilma” não é o resultado. O “não” ou o “sim” são apenas números em confronto. O fundamental não é, sequer, definir se as “pedaladas” são um crime de responsabilidade capaz de anular o resultado da eleição.

O umbigo está mais embaixo e o cordão umbilical é outro.

O nascedouro do caos é a degradação da política, carcomida pelo atual sistema de partidos formados por gente que se oferece à venda como produto de mercado. Os fatos dos últimos dias mostram a prostituição em curso. Em busca de vantagens, os partidos mudam de parceiro sem pudor. Com o mesmo falso deleite, afagam e se entregam hoje aos adversários de ontem, ou vice-versa. Tentam usufruir o poder como aquelas meninas de aluguel que compartem prazeres seja com quem for?

Ou o PMDB e o PP (que “desembarcaram” do governo) não formavam com o PT o trio que mandou no País desde a primeira eleição de Dilma? Ou o trio PT-PMDB-PP não comandou o assalto bilionário à Petrobrás, em conluio com grandes empresas?

A quem o PT (dito de “esquerda”) havia entregue o comando tático da bandidagem na Petrobrás? Ao PP de Paulo Maluf (dito de “direita”) e ao PMDB, de tudo ou de nada. Faz poucos dias, os dois eram parte do governo, com ministérios, departamentos, estatais e outras sinecuras.

Hoje, os dois armam a derrubada definitiva da presidente, capitaneados pelo vice Temer, que participou do governo e do poder e foi, até, coordenador político de Dilma Rousseff. E tudo sob a regência de Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, processado por milionários subornos nas fraudes da Petrobrás.

Foi reconfortante ver o povo sair à rua, externar ideias e opiniões, “sim” ou “não”. Mas sem política nem políticos confiáveis se imita o fanatismo do futebol. O ódio está em todas as partes e nas duas partes. E a intolerância tudo permite. Quanto mais cruel e sibilino for o horror, mais a cegueira fanática se regozija.

Que não seja esse o único legado do episódio do impeachment.

*FLÁVIO TAVARES É ​JORNALISTA E ESCRITOR, PRÊMIO JABUTI DE LITERATURA EM 2000 E EM 2004

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