O interesse do saber desinteressado

Uma das características do mundo contemporâneo é a velocidade com a qual a cultura científica e tecnológica amplia os horizontes do conhecimento, transpõe barreiras antes tidas como naturais e inalteráveis e altera as condições de vida de todos. Por isso, a capacitação científica e tecnológica é uma variável crítica para uma sociedade poder ter um papel de controle do seu próprio destino e encaminhar problemas que desafiam a vida nacional.

Celso Lafer*, O Estado de S.Paulo

16 Junho 2013 | 02h06

São Paulo foi pioneiro, no nosso país, no reconhecimento da importância do apoio à pesquisa e a pesquisadores que tornam possível gerar novos conhecimentos em todos os campos e, assim, lidar com essa variável crítica. A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) foi concebida e criada com esse objetivo e vem contribuindo para aprimorar os paradigmas da organização da pesquisa de instituições públicas e privadas no nosso Estado. Desse aprimoramento, que eleva o nível de qualidade da pesquisa, o melhor exemplo são os Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepids).

No dia 6 de junho, o governador Geraldo Alckmin presidiu a cerimônia de apresentação dos 17 novos Cepids, segunda safra de um projeto que teve início no ano 2000, quando São Paulo era governado pelo saudoso estadista Mário Covas. O governador Alckmin dá, assim, sequência a um programa do qual participou desde o início, pois ele era vice de Covas em 2000.

Eles são uma confirmação de que a pesquisa e a geração de conhecimento têm o seu tempo próprio, diverso da instantaneidade do mundo das finanças e dos meios de comunicação, ou do tempo político dos calendários eleitorais, ou mesmo do tempo mais ou menos longo, dependendo do setor, dos investimentos e da produção. Cada Cepid é criado para trabalhar durante 11 anos, para as hipóteses serem devidamente testadas e conclusões sólidas, alcançadas.

A interdependência entre pesquisa básica e aplicada se verifica nos Cepids desde sua denominação: entre suas prioridades está a inovação, ou seja, a criação de produtos e processos novos utilizáveis por cidadãos, instituições e empresas.

Como seu nome também indica, os Cepids têm de se preocupar com a difusão, ou seja, a informação à sociedade sobre o conteúdo de seu trabalho e a utilidade pública do que produz.

Os primeiros 11 Cepids tiveram impacto importante para o avanço do conhecimento no Estado. Por exemplo, o Centro Antonio Prudente para Pesquisa e Tratamento do Câncer tem dado significativa contribuição para o tratamento dessa doença.

O mesmo pode ser dito sobre todos os demais em relação a suas áreas específicas de atuação, do estudo do sono ao do genoma humano, da terapia celular à toxinologia aplicada aos problemas das metrópoles e a violência, da óptica e fotônica aos materiais cerâmicos e à biotecnologia molecular estrutural.

O financiamento dos novos 17 Cepids (10 dos quais sediados no interior do Estado) soma, em 11 anos, R$ 1,4 bilhão, R$ 760 milhões dos quais desembolsados pela Fapesp e R$ 640 milhões em pagamento de salários a pesquisadores e técnicos.

Os Cepids são expressão da densidade do conhecimento produzido pela excelente infraestrutura universitária no Estado, mais uma demonstração de que sem pesquisa básica de boa qualidade não se criam as bases para futuras aplicações.

O índice de dispêndio do Estado de São Paulo em pesquisa em relação a seu produto interno bruto é superior ao de Espanha, Itália e Rússia e comparável ao de China, Reino Unido e França.

Parte desse fenômeno se explica pelo investimento do setor privado em pesquisa e tecnologia, que só se justifica em regiões que dispõem de universidades e institutos com alto nível de excelência.

Cerca de 60% do que se investe em pesquisa em São Paulo vem das empresas, proporção similar à dos países desenvolvidos, muito superior à registrada nos demais Estados brasileiros.

Essas peculiaridades do nosso Estado têm feito com que a Fapesp dê cada vez mais atenção à cooperação com o setor produtivo, como já ocorre com os programas Pipe, de apoio à pesquisa inovativa em pequenas empresas, e Pite, de apoio à pesquisa em parceria para inovação tecnológica.

Por isso, a Fapesp tem se preocupado em trabalhar projetos que, à semelhança da concepção dos Cepids, mas adaptados às necessidades e peculiaridades do setor produtivo, aproximem as empresas privadas das universidades e institutos de pesquisa paulistas para criarem centros cofinanciados por indústrias e pela Fapesp para desenvolver programas de longo prazo.

Uma dessas ideias já resultou num acordo com a PSA Peugeot-Citroën, que vai criar um Centro de Pesquisas em Engenharia por pelo menos dez anos para desenvolver projetos sobre motores de combustão interna, adaptados ou desenvolvidos especificamente para biocombustíveis e a sustentabilidade dos biocombustíveis.

Outros estão em negociações, como os com a farmacêutica GSK e as aeroespaciais Boeing e Embraer, demonstração de entrosamento entre o setor produtivo e a Fapesp, em benefício do nosso Estado.

São Paulo reúne todas as condições para ser um centro cada vez mais importante de atração para esse tipo de entrosamento.

A Fapesp está dando sua contribuição nesse sentido, sem nunca se esquecer do papel do saber, em todos os campos, tido como desinteressado, pois, como diz Antonio Candido, "só ele permite aprofundar a investigação, que faz progredir o conhecimento e, portanto, a sua eventual aplicação". É por isso que a ciência chamada "básica" não pode jamais ser descuidada, porque é dela que surgem, às vezes de formas totalmente inesperadas e não previsíveis, as aplicações práticas que produzem enormes melhorias à qualidade de vida das pessoas e o desenvolvimento econômico e social das comunidades.

* Presidente da Fapesp, é professor emérito do Instituto de Relações Internacionais da USP

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