O interesse maior

Agiu com sensatez o PSDB ao decidir manter seu apoio ao governo de que faz parte

O Estado de S.Paulo

14 Junho 2017 | 03h08

Para quem tem compromisso genuíno com o interesse nacional, o exato momento em que a economia começa a dar sinais de recuperação não é, certamente, hora de fragilizar politicamente o governo. Agiu com sensatez, portanto, o PSDB, ao decidir manter seu apoio ao governo de que faz parte. A julgar, no entanto, pela repercussão da decisão tucana em boa parte da mídia, e, principalmente, pelos comentários colhidos entre participantes do encontro de segunda-feira em Brasília, o PSDB parece ter tomado a decisão certa pelos motivos errados. E esse é mais um sintoma da gravidade de uma profunda crise que deriva basicamente da falência de um sistema de representação política infectado pela ganância do patrimonialismo histórico e, mais recentemente, pela irresponsabilidade do populismo salvacionista.

Os tucanos, depois de vários adiamentos, anunciaram que continuarão aliados ao presidente Michel Temer pelo menos até que “fatos novos” recomendem reexame da questão. Tais fatos seriam denúncias apresentadas contra Temer, principalmente a que o procurador-geral da República está preparando com um empenho que não demonstrou quando quem estava no olho do furacão era a presidente Dilma Rousseff, ou até mesmo novas delações muito bem premiadas que ajudem a complicar a já difícil situação política do chefe do governo. Esses novos fatos, argumentam tucanos defensores de eventual desembarque, tornariam “ainda mais insustentável” a crise e isso justificaria, finalmente, o fim da aliança com o PMDB, o que não significaria necessariamente a retirada do apoio às reformas.

Ao longo de quase 30 anos o PSDB marcou sua história pela polarização eleitoral com o PT e por uma cautela para tomar decisões importantes que frequentemente beira a indecisão. Por isso mesmo fez por merecer a fama de estar sempre “em cima do muro”, o que significa colocar sempre os próprios interesses em primeiro lugar. E confirma a fama quando finge não entender que o combate à corrupção é uma coisa e a luta pela recuperação econômica é outra. A primeira tem o apoio dos brasileiros e, apesar de alguns excessos e do caráter messiânico de alguns dos responsáveis pelas investigações, até onde a vista alcança é um processo irreversível de saneamento da vida pública, até o ponto em que isso for humanamente possível.

A luta pela recuperação da economia, por sua vez, é prioritária do ponto de vista de sua repercussão social, na medida em que é condição essencial à retomada do crescimento, em benefício de todos e de cada um dos cidadãos brasileiros a partir da redução drástica da taxa de desemprego. As reformas que estão sendo propostas pelo governo Temer, algumas delas já aprovadas, como a emenda que impõe teto aos gastos públicos, certamente não são sempre perfeitas e muito menos definitivas. Mas são, todas, absolutamente necessárias para recolocar o País no caminho do crescimento econômico e social.

Assim, exceto para quem tem óbvio interesse eleitoral e/ou ideológico no fracasso do atual governo, não faz o menor sentido paralisar o processo de discussão e implantação das reformas. E, se o governo está “politicamente insustentável” – como alegam tucanos ansiosos pelo desembarque –, maior é a necessidade do apoio daqueles que, como os próprios tucanos, se declaram comprometidos com as reformas. E isso não tem nada a ver com as suspeitas que rondam o Palácio do Planalto. O País já demonstrou que está institucionalmente apto a enfrentar os casos de corrupção que têm sido levantados. Mas não pode prescindir de um governo minimamente estável – e este, diz a Constituição, é o do sr. Michel Temer. É dele, portanto, que depende o prosseguimento das reformas e do esforço para estabilizar e recuperar a economia.

Mais do que disposição para tomar decisões, portanto, o que o momento histórico exige do PSDB é a coragem de permanecer no governo ao lado dos interesses dos brasileiros.

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