O investimento da indústria

O custo e a escassez de crédito continuam a preocupar as empresas brasileiras, mas agora elas enfrentam um fator muito mais perturbador e que afeta diretamente seus planos de investimentos: as incertezas do quadro econômico. Elas acompanham com muita atenção as mudanças no cenário nacional e internacional e, embora estejam pessimistas com relação ao desempenho da economia nos próximos meses, na maioria pretendem investir ao longo de 2009. No entanto, como captou com muita clareza uma pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), estão mudando rapidamente o foco de seus investimentos, de acordo com o que consideram mais importante no momento.As empresas dispostas a investir este ano correspondem a 82% do total entrevistado pelos pesquisadores da CNI, que, entre 5 e 26 de janeiro, ouviram dirigentes de 1.407 indústrias, sendo 749 de pequeno porte, 444 de médio porte e 214 de grandes empresas, para elaborar a Sondagem Industrial Especial. É um índice menor do que o da pesquisa realizada em igual período do ano passado, de 89%, mas muito alto se considerada a situação da economia mundial, marcada por aguda recessão nos países industrializados.Como consequência da crise, porém, a natureza dos investimentos mudou muito em 2009. Em 2008 e nos anos anteriores, eles tinham como principal objetivo o aumento da capacidade de produção, para atender a demandas crescentes. Mas, das empresas que, no início de 2008, planejavam investir, apenas 42% conseguiram executar plenamente seus planos e 44% o fizeram parcialmente. As demais adiaram ou simplesmente cancelaram os planos. Hoje, a maioria das empresas considera sua capacidade instalada adequada para atender à demanda prevista.Por isso, em 2009, elas investirão principalmente na melhoria da qualidade dos produtos e no lançamento de novos itens. Procurarão, também, por meio de investimentos, reduzir os custos da mão de obra e os custos não trabalhistas.Outra mudança é o mercado no qual as empresas concentrarão sua atenção. Apenas 3,3% das empresas pesquisadas pela CNI disseram que seus investimentos se destinam a atender prioritariamente ao mercado externo. A série de pesquisas da CNI mostra uma queda constante do interesse pelo mercado externo. Em 2005, 11% das empresas investiram tendo como objetivo o aumento das exportações. Foi o índice mais alto das pesquisas da CNI, e caiu rapidamente nos anos seguintes, tendo ficado em 4,6% em 2008. É um índice muito baixo, mas, ainda assim, em 2009 ele ficou ainda menor, 3,3%. Isso mostra que, na avaliação da indústria, o aumento da cotação do dólar - que resulta em mais reais por unidade exportada - não é suficiente para compensar o esforço para tentar conquistar fatias num mercado internacional que encolhe.A consequência não poderia ser outra senão a queda nas compras de máquinas e equipamentos. A redução é mais acentuada nas grandes empresas, a maior parte das quais prevê uma folga na sua capacidade produtiva nos próximos meses.O impacto dessa decisão é muito forte sobre a indústria de máquinas. O faturamento do setor caiu 38,8% em janeiro, na comparação com dezembro, e 34,7% em relação a janeiro do ano passado, descontada a inflação. Ou seja, a indústria de máquinas e equipamentos perdeu mais de um terço de seu faturamento. A situação não deve melhorar nos próximos meses, pois o número de pedidos em carteira é 35% menor do que o existente em setembro de 2008.A Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) prevê que, se esse quadro se mantiver, o setor demitirá até 50 mil trabalhadores no primeiro semestre. "Quando o faturamento recua 60%, como no caso das máquinas-ferramentas, não há redução de jornada e salários que resolva", disse o presidente da Abimaq, Luis Aubert Neto.Mas há um lado positivo no ajuste da indústria. "A crise a obriga a ser mais competitiva, com mais agilidade na entrega dos produtos", observou o economista da CNI Renato da Fonseca. "Algumas empresas ficarão mais fortes, pois investem em eficiência."

, O Estadao de S.Paulo

21 de fevereiro de 2009 | 00h00

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