O Irã e o ''novo começo''

O primeiro resultado público da política de abertura do presidente Barack Obama para o Irã foi a decisão do governo de Teerã de aceitar o convite - feito no início do mês pela secretária de Estado, Hillary Clinton - para participar da cúpula internacional sobre o futuro do Afeganistão, marcada para amanhã, em Haia, sob o patrocínio da ONU. "É de grande importância a presença do Irã", comemorou o chanceler holandês Maxime Verhagen. Ele naturalmente disse o que lhe cabia dizer, mas convém não tirar daí conclusões precipitadas - nem sobre a atitude iraniana em relação aos planos dos EUA para reverter o quadro de insucessos na guerra de sete anos contra o Taleban e a Al-Qaeda em território afegão, muito menos sobre a disposição da República Islâmica de aceitar o ramo de oliveira que lhe estendeu Obama. Coroando sucessivas declarações a respeito, o presidente americano enviou na semana passada ao Irã uma inédita mensagem em vídeo, propondo "um novo começo" para as relações entre os dois países.Quanto à conferência, em que Obama apresentará a nova estratégia de Washington para o Afeganistão, Teerã se guardou de informar, na sua resposta, de que nível hierárquico serão os seus representantes - um óbvio indicador de sua maior ou menor inclinação em face da distensão com que os EUA lhe acenam e da chamada "dupla abordagem" da política iraniana da União Europeia: de um lado, sanções econômicas pela sua recusa a aceitar inspeções de seu programa de enriquecimento de urânio, que se presume destinar-se à produção de armas nucleares; de outro, promessas de retribuições diplomáticas e comerciais como incentivo à cooperação com a comunidade internacional. Quanto às relações bilaterais com os EUA, a reação inicial de Teerã foi fria, como se previa. Condicionou a retomada do diálogo interrompido em 1980, na esteira da Revolução Islâmica, a pedidos de desculpas, entre outras coisas, pela derrubada, em 1998, de um jato comercial iraniano, que matou 290 pessoas.Na realidade, a partir de sua própria ascensão à Casa Branca, Obama representa uma complicação para o governo iraniano. No mínimo, ficou mais difícil continuar chamando os EUA de "Grande Satã" desde que passaram a ser conduzidos por um afro-americano com parentes muçulmanos pelo lado paterno e que se dissociou por completo da retórica do "eixo do mal" de seu antecessor (embora a política de mão estendida do novo presidente seja vista com indisfarçadas reservas no Departamento de Estado da secretária Hillary). Além disso, o isolamento do Irã é mais oneroso ao país do que deixam transparecer os pronunciamentos triunfalistas do seu agressivo presidente Mahmoud Ahmadinejad e do guia supremo da teocracia iraniana, Ali Khamenei, ungido pelo seu criador, o aiatolá Ruhollah Khomeini. (O guardião do fundamentalismo islâmico é também quem dá a última palavra sobre a política externa - e nuclear - do país.) O Irã sofre os efeitos da queda dos preços do seu principal produto. Prevê-se que as suas exportações de petróleo e gás, em 2009, rendam menos da metade dos US$ 80 bilhões de 2008.Por outro lado, não se enxergam, até onde a vista alcança, que condições políticas teria um dirigente iraniano - o país elegerá um novo presidente em junho - para submeter o seu programa nuclear ao policiamento internacional ou aceitar a alternativa da transferência a outro Estado dos seus serviços de enriquecimento de urânio. A bandeira da autonomia nacional está longe de ser empunhada apenas pelo estabelecimento religioso e seus seguidores na massa da população. Mesmo entre os iranianos das classes médias ocidentalizadas - que seriam os primeiros a aprovar a reaproximação com os EUA - o direito do país às suas atividades nucleares é inegociável. A par disso, o Irã não se sente confortável nas cercanias da Arábia Saudita, Turquia e Rússia (para não falar da frota americana ancorada no Golfo e das tropas no Iraque). E um argumento que não cala entre os orgulhosos iranianos, incluídos os moderados, é o de que "se Israel, a Índia e o Paquistão podem ter a bomba, por que não o Irã"?

, O Estadao de S.Paulo

30 de março de 2009 | 00h00

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