O Irã se dá uma chance

Em vez de culpar o Ocidente pelas sanções econômicas que devastam a economia do Irã, em meio à recessão, inflação e desemprego, Hassan Rohani, o único centrista dos seis candidatos autorizados pelo líder supremo da República Islâmica, o aiatolá Ali Khamenei, a participar da eleição presidencial de sexta-feira passada, culpou o governo de Mahmoud Ahmadinejad pelo acirramento das tensões em torno do programa nuclear iraniano que levaram os EUA, a União Europeia e, enfim, o Conselho de Segurança da ONU a aplicar ao país punições cada vez mais fortes.

O Estado de S.Paulo

18 Junho 2013 | 02h09

Rohani - um clérigo de 65 anos que se doutorou em direito na Escócia com uma significativa tese sobre a "flexibilidade" da sharia, a lei corânica; ocupou durante 15 anos a secretaria do Supremo Conselho de Segurança Nacional do Irã; e, entre 2003 e 2005 foi o seu principal negociador nuclear - obviamente não ignorava, ao atacar Ahmadinejad, que Khamenei, o vitalício chefe da teocracia iraniana, detém a última palavra em matéria de política nuclear, política externa e diretrizes de defesa e segurança.

E, embora o belicoso Ahmadinejad tivesse caído em desgraça no seu segundo mandato, Rohani não ignorava tampouco que, se Khamenei de fato quisesse desautorizá-lo, teria meios de sobra para tanto. Aliás, a fraude e a violência graças às quais ele se reelegeu em 2009 foram engendradas no vasto aparato repressivo do regime que responde diretamente ao líder supremo. A ousadia de Rohani e as suas promessas, nos debates eleitorais televisivos, de mais liberdade e novos direitos às mulheres produziram uma metamorfose.

Aqueceram uma campanha até então morna; abalaram as previsões de que o eleito seria inexoravelmente um dos cinco conservadores no páreo; mobilizaram em favor de Rohani o ainda popular ex-presidente Ali Rafsanjani (1989-1997), ele próprio impedido de concorrer; levaram às urnas nada menos de 72% dos 50 milhões de eleitores do país; e, surpresa das surpresas, deram a Rohani 50,7% dos votos, dispensando o segundo turno, que também era dado como certo, entre o prefeito de Teerã, Mohamad Qalibaf, e o ainda mais linha-dura Said Jalili, candidato in pectore de Khamenei.

Duas novidades, portanto: eleições limpas e acatamento instantâneo dos seus resultados. "Os iranianos", resumiu Jon Snow, do Channel 4 de Londres, o único jornalista britânico autorizado a cobrir as eleições, "se deram um presidente que, no mínimo, será menos verbalmente agressivo e insultuoso do que Ahmadinejad. Ele também procurará mudar as relações do Irã com o mundo." O cortês, bem educado e pragmático Rohani, apelidado "o xeque diplomata" - em cujas memórias se lê que a ideologia nunca pode ser obstáculo ao progresso -, não terá dificuldade para cumprir a primeira parte do prognóstico. A segunda, porém, depende de muito mais do que de suas inclinações.

Beira a quadratura do círculo o desafio de aliviar, que dirá remover, as sanções econômicas ao Irã, sem atender à principal exigência do Ocidente - a suspensão de suas atividades de enriquecimento de urânio e a abertura irrestrita das instalações nucleares do país à fiscalização da ONU. O Irã alega desde a primeira hora que, como signatário do Tratado de Não Proliferação, tem pleno direito a um programa nuclear para fins pacíficos. Poucos, no exterior, duvidam de que o país ou quer a bomba, quebrando o monopólio atômico de Israel no Oriente Médio, ou quer estar pronto a fabricá-la, para retaliar a um ataque israelense.

Como se o impasse nuclear já não bastasse, o ativo apoio iraniano ao ditador sírio Bashar Assad, em dupla com o Hezbollah libanês, sustentado por Teerã, estreita ainda mais as chances de um diálogo duradouro com o Ocidente. Há quem diga que Rohani ofereceria - em troca do fim das sanções e do reconhecimento do direito iraniano a um programa nuclear civil - a oficialização, pelo governo, do decreto religioso (fatwa) assinado por Khamenei em 2003 que amaldiçoa e bane a bomba.

De toda forma, será um erro presumir que nada mudará no Irã.

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