O jogo perigoso de Trump

Ao retirar os EUA do acordo nuclear com o Irã, ele contrariou poderosos aliados

O Estado de S.Paulo

10 Maio 2018 | 03h00

Com o risco de sua decisão provocar graves perturbações na sensível região do Oriente Médio, o presidente Donald Trump, com a linguagem desabusada de sempre, retirou os Estados Unidos do acordo nuclear com o Irã, contrariando meio mundo, a começar por poderosos aliados – o Reino Unido, a França e a Alemanha –, sem falar nas outras duas grandes potências, a Rússia e a China, que são todos também signatários daquele documento. E prometeu deixar a porta aberta para negociar outro acordo, com novas concessões do Irã, numa aposta de alto risco e desfecho imprevisível.

“No coração do acordo com o Irã, estava a gigantesca ficção de que um regime assassino desejava apenas um programa nuclear pacífico”, disse Trump, acrescentando: “Hoje nós temos a prova definitiva de que essa promessa iraniana era uma mentira”. Era uma referência a documentos do serviço secreto de Israel, divulgados com pompa, dias atrás, pelo primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, um dos raros líderes internacionais não só a apoiar firmemente a decisão de Trump, como tê-la incentivado desde que ele a prometeu na campanha eleitoral de 2016.

O acordo nuclear com o Irã – que aceitou drásticas restrições a seu programa nuclear, em troca do levantamento de parte importante das sanções econômicas que lhe foram impostas por norte-americanos e europeus – contém imperfeições, como de resto qualquer acordo, o que nunca foi negado por nenhuma das potências signatárias. Mas a obediência do Irã aos termos desse acordo é reconhecida pelos signatários, além dos organismos internacionais de controle e fiscalização. Entre as poucas exceções, além de Trump, está Netanyahu e a ala mais dura de seu governo, mas os documentos apresentados por ele, embora verdadeiros, já eram conhecidos e se referem, segundo especialistas, a situações anteriores à assinatura do acordo.

Os serviços de inteligência dos Estados Unidos concordam que o Irã tem respeitado suas obrigações, o que levou o próprio secretário de Estado, Mike Pompeo, e o diretor de Inteligência Nacional, Dan Coates, a declararem isso publicamente. Que o Irã esteja fazendo isso de boa vontade ou forçado pelo rigor das inspeções a que está sujeito – é para tal que os tratados existem –, pouco importa. Não por acaso, também importantes lideranças republicanas no Congresso eram a favor da manutenção do acordo. Uma delas chegou a advertir que não existia Plano B e, por isso, a retirada dos Estados Unidos do acordo poderia criar um perigoso vazio.

Na ânsia de desmontar tudo que herdou de Barack Obama, de forma sistemática e obsessiva, além de satisfazer antes de mais nada seus fiéis eleitores, que já não são a maioria, Trump ficou dependente, neste caso, do resultado de seu arriscado jogo, no qual exige duras concessões do Irã. Além de restrições ao programa de mísseis balísticos e paralisação de atividade terrorista, uma outra é tão abrangente que é difícil negociar: o que chamou de bloqueio de sua atividade ameaçadora no Oriente Médio.

Muito vai depender da reação do Irã, dos aliados ocidentais e principalmente da Rússia e da China. O Irã anunciou que espera ver que posição adotarão os outros signatários, mas já advertiu que, caso o acordo se torne inviável, vai “enriquecer urânio mais do que nunca”.

Quanto à capacidade de Reino Unido, França e Alemanha resistirem à pressão dos Estados Unidos, ela talvez não seja tão grande como imaginam. Basta lembrar que pouco depois do pronunciamento de Trump, o secretário do Tesouro, Steve Mnuchin, afirmou que, com a volta das sanções ao Irã, serão revogadas licenças concedidas à Boeing e à Airbus para a venda de 200 aviões àquele país.

Resta saber o que farão a Rússia e a China. E especialmente o próprio Trump, ou seja, até onde ele e seus assessores estão dispostos a ir na negociação proposta de um novo acordo para conseguir o que desejam do Irã, sob o risco de desestabilizar perigosamente o já instável Oriente Médio.

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