O jornalista fazendeiro

Falou-se tudo, merecidamente, de Ruy Mesquita, esse brasileiro extraordinário, baluarte da democracia. Mas uma faceta de sua personalidade ainda se esconde: o grande jornalista adorava as coisas do campo. Era um verdadeiro agricultor.

XICO GRAZIANO *,

28 Maio 2013 | 02h04

Dr. Ruy foi um pioneiro na plantação de seringueira, a árvore da borracha, nas terras do município de Frutal (MG). Há cerca de 30 anos, quando a heveacultura já comprovava seu elevado potencial produtivo no território paulista, mais especificamente na região de São José do Rio Preto, ele vendeu seu barco e adquiriu uma modesta fazenda nas bandas do Triângulo Mineiro. O homem que no mar estimava velejar e pescar se entusiasmou com os destinos da roça. Do litoral para o interior.

Quem o conheceu mais de perto sabia dessa sua paixão pelo cheiro do mato. Tantos afazeres, muitas preocupações, várias responsabilidades, nada, porém, o impedia de largar o asfalto e sujar a botina na poeira da estrada, trocando a redação pelo látex que escorria da plantação. Dr. Ruy, o jornalista fazendeiro, que nunca foi enjoado, embora culto, aflorava fácil seu modo simples de ser, encruado no coração de agricultor.

Ao conhecer mais de perto a lide rural, tornou-se um grande defensor da agropecuária. A bem da verdade, o jornal da família, por origem ligada, naturalmente, às oligarquias cafeeiras, sempre esteve ao lado do homem do campo. Durante décadas, desde 1955, o Suplemento Agrícola do Estadão, publicado às quartas-feiras, foi leitura obrigatória dos técnicos, agricultores e demais aficionados. Entrando na era do computador, pilotado pelo filho Rodrigo o Estado lançou, em 1995, o Agrocast, um pioneiro serviço, que pouco tempo seria veiculado na internet, fornecendo bom e rápido conteúdo sobre os mercados agrícolas. Saber é poder.

Essa política de valorização da terra produtiva me aproximou do dr. Ruy. Embora nosso contato fosse esporádico - afinal, nossas gerações são distantes -, identificava-nos a defesa da produção rural sustentável. Assim, levado pelas mãos de José Nêumanne, tornei-me, há dez anos, articulista do jornal, sempre escrevendo sobre os dilemas do mundo rural. Muitas vezes, confesso, ao redigir ficava imaginando o que o Ruy pensaria sobre o meu ponto de vista. Invariavelmente, ele me permitia saber que apreciava minha pena. Uma causa comum.

Conheci Ruy Mesquita nos tempos bravos da ditadura militar, mais precisamente em março de 1973, quando um grupo de estudantes da USP o procurou, nas dependências da Rua Major Quedinho, no centro de São Paulo, por ocasião da morte de Alexandre Vannucchi Leme, de 22 anos, torturado dentro dos porões da repressão. Naquele tempo, extinta a UNE e amordaçado o movimento estudantil, havíamos criado um conselho que aglutinava várias entidades, incluindo o Centro Acadêmico Luiz de Queiroz (Calq), de Piracicaba, câmpus onde eu cursava Agronomia.

Jamais me esqueci daquele encontro. Caipira, que nunca nego o berço, embalado pelos sonhos socialistas da juventude, enchi-me de orgulho ao estar conversando com pessoa tão ilustre, juntos na mesma trincheira da luta contra a ditadura. Fomos pedir respaldo, proteção, conselho, nem sei direito o quê, pois iríamos realizar, na Catedral da Sé, uma missa em reverência ao nosso colega assassinado. Estávamos, no fundo, com medo de apanhar da polícia. Mas saímos da conversa de peito estufado, cheios de coragem, amparados, talvez mais do que devêssemos, pelas palavras firmes de Ruy Mesquita. A missa, rezada por dom Paulo Evaristo Arns, transcorreu em paz.

Voltei a encontrar o dr. Ruy somente em 1995, logo após o presidente Fernando Henrique Cardoso me nomear presidente do Incra. A questão agrária no Brasil começava a descambar para a violência e um massacre envolvendo trabalhadores sem terra em Corumbiara (RO) exigia reforçar a atuação do governo. O assunto excitava os veículos de comunicação. Após conversar com os repórteres, tomei um café com o consagrado diretor do Estado. Contei-lhe minha dívida de gratidão pelo agasalho moral oferecido aos estudantes nos anos de chumbo. Ele riu.

Depois, em 2000, já eleito deputado federal (PSDB-SP), conheci Carlos Soulié do Amaral, mistura boa de agricultor, poeta e jornalista, a quem concedi uma bombástica entrevista, manchete principal do Estado, sob o título Brasil faz a pior reforma agrária. Convidado pela direção, estive depois no jornal para prosear com a equipe de jornalistas, tentando explicar melhor os (des)caminhos da reforma agrária brasileira. Começava a ficar clara uma fraude histórica: a fábrica de sem-terra.

O mesmo homem, liberal de formação, que sem pestanejar amparou nossas angústias estudantis ante os trogloditas da direita agora mostrava seu inconformismo com as invasões de terra promovidas pelo esquerdista MST. Seu brado libertário não trazia coloração ideológica. Ruy Mesquita não aceitava, de modo algum, que, em nome da reforma agrária ou sabe-se lá do quê, grupos organizados tomassem propriedades rurais armados com foices e facões, tocando fogo nas fazendas, roubando gado, destruindo benfeitorias, fazendo justiça com as próprias mãos. Opunha-se aos invasores, abrindo as páginas do jornal na defesa do Estado Democrático de Direito.

Não foi apenas o jornalismo que perdeu um notável protagonista. A morte de Ruy Mesquita também entristece a agricultura brasileira. Nós perdemos uma pessoa que vivenciava o agro, conhecia nossos problemas e nossas virtudes, entendia nossa linguagem. A voz que nunca se acovardou na luta pela liberdade democrática era a mesma que amparava a legítima produção rural. Agora resta um silêncio no nosso coração.

* AGRÔNOMO, FOI SECRETÁRIO DE AGRICULTURA E SECRETÁRIO DE MEIO AMBIENTE DO ESTADO DE SÃO PAULO. E-MAIL: XICOGRAZIANO@TERRA.COM.BR.

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