O lado externo da reativação

O investimento direto líquido – ingresso menos saída – foi de US$ 4,09 bilhões, bem mais que suficiente para cobrir o saldo em vermelho

O Estado de S.Paulo

24 Agosto 2017 | 03h00

Com bons números no setor externo, o governo pode concentrar-se no reparo das finanças públicas, sem ter de se preocupar, por um bom tempo, com escassez de dólares e cara feia de credores estrangeiros. O investimento direto recebido de fora, que somou US$ 84,50 bilhões nos 12 meses até julho, foi suficiente para cobrir seis vezes, com sobra, o déficit de US$ 13,80 bilhões nas transações correntes. Essa conta resume as transações com bens e serviços e a movimentação de rendas entre o País e o exterior. No caso brasileiro, é geralmente deficitária, porque o superávit no comércio de bens é quase sempre menor que o saldo negativo em serviços e rendas. Um déficit controlado pode contribuir para o crescimento econômico, porque é uma forma de absorção de poupança externa. O ingresso de investimento direto, menos especulativo que as demais operações financeiras, é normalmente a maneira mais segura e produtiva de compensar o desajuste nas contas correntes.

Em julho, essas contas foram fechadas com déficit de US$ 3,40 bilhões, depois de quatro meses de resultados positivos. O investimento direto líquido – ingresso menos saída – foi de US$ 4,09 bilhões, bem mais que suficiente para cobrir o saldo em vermelho. Apesar de negativo, o resultado mensal das transações correntes aponta mudanças favoráveis na economia. O valor dos bens importados, de US$ 12,67 bilhões, foi 6,38% maior que o de um ano antes. No ano, chegou a US$ 85,20 bilhões, com aumento de 7,33% sobre os mesmos sete meses de 2016. Importações em alta são um sinal de reativação da demanda interna. O saldo comercial, no entanto, permaneceu positivo, porque o valor exportado, de US$ 18,72 bilhões no mês e de US$ 126,18 bilhões de janeiro a julho, superou com folga a despesa com as compras e também foi maior que o do ano anterior (18,98% de alta, na comparação entre os dois períodos de sete meses).

Detalhe relevante, mas sem visibilidade na tabela publicada ontem pelo Banco Central (BC), é o avanço das vendas externas de produtos manufaturados, um fator importante para a reativação da economia nacional. O comércio exterior tem contribuído para a criação de postos de trabalho produtivos e para a redução, ainda lenta, do desemprego ainda muito elevado.

O aumento do déficit nas contas de serviços e de renda primária também sinaliza alguns fatos positivos na economia brasileira, em começo de retomada depois de mais de dois anos de recessão. O déficit de serviços passou de US$ 17,11 bilhões no período de janeiro a julho de 2016 para US$ 18,56 bilhões nos meses correspondentes deste ano. O saldo negativo da conta de renda primária evoluiu de US$ 23,73 bilhões para US$ 26,32 bilhões entre os dois períodos.

Aumentos nas despesas de fretes e de viagens e na remessa de lucros e dividendos explicam boa parte da variação dos saldos. A recessão havia freado essas duas classes de despesas. No caso das viagens, a expansão dos gastos é explicável tanto pela reativação do turismo no exterior quanto pelo maior número de saídas de profissionais para negócios.

A recuperação das contas externas, nos últimos dois anos, decorreu inicialmente de restrições criadas pela recessão. As importações de bens caíram por um longo período, por causa da retração do mercado interno. Diminuíram, nesse período, tanto as compras de matérias-primas e bens de consumo como as de máquinas e equipamentos. Esse quadro começou a mudar e o valor importado voltou a crescer, assim como o exportado.

Para ter uma ideia mais clara da mudança é preciso olhar um pouco mais longe. Em 2014, o déficit em transações correntes chegou a US$ 104,18 bilhões – uma das façanhas do governo Dilma Rousseff, um desastre para o comércio exterior brasileiro. No fim de 2016 o buraco estava reduzido a US$ 23,53 bilhões (1,31% do PIB), por causa da enorme retração da economia e do desemprego de 14 milhões de pessoas. Para 2017, o BC projeta déficit de US$ 24 bilhões, equivalente a 0,23% do PIB, com a economia em recuperação e o consumo em alta, lenta, mas bem definida.

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