O lado mais cruel da crise

Ruim para todos os trabalhadores e para o País, a crise do mercado de trabalho está sendo mais severa para dois dos segmentos mais vulneráveis da mão de obra disponível: os que ganham menos e os mais velhos

O Estado de S.Paulo

26 Setembro 2016 | 03h00

Ruim para todos os trabalhadores e para o País, a crise do mercado de trabalho está sendo mais severa para dois dos segmentos mais vulneráveis da mão de obra disponível: os que ganham menos e os mais velhos. Essa constatação dá à crise em que o País está mergulhado um aspecto ainda mais cruel do ponto de vista social.

É na faixa dos que ganham menos de um salário mínimo por mês – a mais baixa das dez classes de renda analisadas – que o rendimento real mais cai, como mostrou estudo sobre o mercado de trabalho publicado na mais recente edição da Carta de Conjuntura, editada trimestralmente pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), vinculado ao Ministério do Planejamento. Já o aumento do desemprego é mais rápido na faixa dos trabalhadores com mais de 59 anos – em geral os que normalmente encontram mais dificuldade para encontrar uma ocupação remunerada – do que nas demais.

De acordo com o estudo do Ipea – baseado nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, feita pelo IBGE –, a renda média mensal dos ocupados que recebem menos de um salário mínimo caiu 9% no segundo trimestre deste ano, na comparação com o mesmo período de 2015. Já a faixa de renda mais alta, formada pelos 10% que recebem as maiores remunerações, registrou alta real média de 2,38% nessa comparação. Para todos os trabalhadores ocupados no período, o resultado foi queda de 4,2% da renda real.

Esses números sugerem que, pelo menos no que se refere ao rendimento do trabalho, o coeficiente de Gini, que mede a desigualdade da distribuição de renda, deve ter piorado. O Ipea, no entanto, trata da questão com cautela. O coordenador do Grupo de Estudos de Conjuntura da instituição, José Ronaldo de Souza Júnior, destaca que são dados relativos a só uma forma de rendimento, o proporcionado pelo trabalho, e por isso o resultado “pode não estar mostrando uma piora na desigualdade”. Dados mais amplos deste ano, incluindo todas as formas de renda, ainda não estão disponíveis.

Outra realidade mostrada pelo empobrecimento mais rápido dos que ganham menos é a inocuidade da atividade sindical para boa parte da força de trabalho. Quem ganha menos de um salário mínimo não tem contrato formal de trabalho e, por isso, não pertence a uma categoria representada por sindicato profissional. “Ele não ganha nem salário mínimo, está à margem da lei trabalhista”, observou o coordenador de estudos do Ipea. “Como a crise se espalhou de forma muito forte, são os maiores prejudicados. Eles estão em posição de vulnerabilidade mesmo.”

Da mesma forma que os mais pobres, também os trabalhadores mais velhos são duramente atingidos pela crise. Ressalve-se que o desemprego afeta mais fortemente os trabalhadores jovens, dos quais cerca de um quarto não encontra colocação no mercado. Mas essa taxa, de 25% a 26%, tem se mantido relativamente estável ao longo da crise. Já o índice de desemprego na faixa dos trabalhadores com mais de 59 anos de idade passou de 2,05% no último trimestre de 2014 para 4,75% no segundo trimestre de 2016. É um aumento de 132%.

A crise empurrou de volta para o mercado de trabalho trabalhadores mais idosos que já tinham optado pela aposentadoria. Assim, entre o fim de 2014 e junho deste ano, o número de integrantes da população economicamente ativa (PEA) com mais de 59 anos passou de 20,7 milhões para 21,4 milhões. São, porém, trabalhadores que enfrentam mais dificuldades para se empregar porque estavam foram do mercado de trabalho e porque têm sua capacidade produtiva colocada em questão, especialmente quando se trata de tarefas que exijam esforço físico. Ao mesmo tempo que aumenta a PEA, isso faz crescer o número de desempregados.

A situação hoje enfrentada por essa faixa de trabalhadores pode ser uma antecipação do que ocorrerá com o mercado de trabalho no futuro, quando, como indica a evolução demográfica do País, uma fatia muito maior da população terá 60 anos ou mais.

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