O lance da Liga Árabe

Hoje mesmo se poderá saber se o ditador sírio Bashar Assad pretende cumprir o primeiro dos compromissos que assumiu na quarta-feira com a Liga Árabe para pacificar o seu país - o de retirar das ruas as forças militares e os serviços de segurança que há cerca de oito meses reprimem ferozmente as manifestações pelo fim do regime, deixando mais de 3 mil mortos. Sexta-feira, o domingo muçulmano, é o dia tradicional dos protestos de rua no mundo árabe-islâmico. Assim como em outros países onde floresceu a primavera árabe, a intensidade do movimento pela instauração da democracia na Síria e o empenho em eliminá-lo podem ser medidos pelas multidões iradas que se formam à saída das mesquitas e pela violência com que são atacadas. Sexta-feira passada, soldados e policiais mataram pelo menos 40 manifestantes, estabelecendo um lúgubre recorde para a data: em 6 de maio, haviam sido 36.

O Estado de S.Paulo

04 Novembro 2011 | 03h06

A persistência do impasse na Síria - onde nem o regime consegue sufocar a insurgência popular, nem esta consegue trincar a tirania implantada em Damasco há 31 anos, que Bashar herdou do pai Hafez, falecido em 2000 - subiu ao topo da agenda árabe com o desfecho da rebelião na Líbia e a execução ignominiosa do psicocrata Muamar Kadafi, o terceiro ditador da região a cair este ano. Liderada pelo Catar, até há pouco o principal parceiro da combalida economia síria, a Liga Árabe tratou de oferecer uma barganha a Assad, em contraposição às fracassadas tentativas ocidentais de obrigá-lo a ceder sob o peso de sanções internacionais. No começo de outubro, a China e a Rússia vetaram no Conselho de Segurança (CS) das Nações Unidas uma resolução nesse sentido apresentada pelos Estados Unidos e membros da União Europeia. No último fim de semana, diplomatas árabes e autoridades sírias reuniram-se em Doha, no Catar, para traçar o "roteiro da pacificação".

O plano, consolidado no Cairo, prevê o aquartelamento das forças repressoras, a libertação de uma parcela ainda indeterminada dos 10 mil presos políticos que se estima existirem na Síria, a permissão para o ingresso de jornalistas estrangeiros e observadores da Liga Árabe no país, além do início de conversações, em duas semanas, também no Cairo, entre representantes do governo e da oposição. Assad relutou em aceitar a capital egípcia como sede das negociações, em vez de Damasco, porque a escolha de certa forma confere aos interlocutores o mesmo status político. Ele decerto pretende manobrar para que o outro lado da mesa seja predominantemente ocupado pela oposição moderada, cujas propostas de reforma não incluem a sua renúncia. Para outros setores, a maioria ao que tudo indica, a remoção de Assad não seria negociável, mas só questão de tempo.

Os promotores do plano sabem que o astuto ditador, cujas feições suaves escondem um tirano implacável com quem o afronte e que já descumpriu sucessivas promessas de liberalização do regime, não está arfando de ansiedade para seguir ao pé da letra o texto assinado pelo seu chanceler Walid al-Muallem - enquanto, sintomaticamente, mais 24 pessoas eram abatidas no reduto rebelde de Homs, no centro do país, no mesmo dia. Ontem foram outras 12. "Ficamos felizes por ter chegado a esse acordo", havia comentado o primeiro-ministro do Catar, xeque Hamad bin Jassim al-Thani, emendando, com conhecimento de causa, que "ficaremos ainda mais felizes se for implementado imediatamente". Para os ativistas exilados do outro lado das fronteiras sírias, no Líbano e na Turquia, a adesão de Assad à iniciativa de Doha era ao mesmo tempo inevitável e conveniente.

Se a rejeitasse, argumentam, ele estaria a caminho de se tornar um chefe de Estado pária perante os demais governos árabes, um Kadafi do Oriente Médio. Aceitando-a, pode ao menos ganhar tempo - embora não se saiba quais possam ser as suas expectativas realistas. Quando correram mundo as imagens da prisão, tortura e morte do ditador líbio, em 20 de outubro, não faltou quem se perguntasse como Assad estaria reagindo a esse espetáculo de justiçamento selvagem. Mas não parece que tenha imaginado que possa, também ele, terminar os seus dias de forma abjeta.

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