O longo rescaldo da crise

A pesada conta da crise mundial ainda vai ser paga durante muitos anos, com desemprego elevado, baixo crescimento e muito aperto de cinto, principalmente no mundo rico, segundo a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), formada pelos países mais industrializados e uns poucos emergentes. Os candidatos a governar o Brasil deveriam dar mais atenção a essa advertência. Quem vencer a eleição terá de comandar o País num mundo bem menos hospitaleiro que aquele encontrado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

, O Estado de S.Paulo

30 Maio 2010 | 00h00

O presidente Lula foi abençoado por quase seis anos de prosperidade global. Aproveitou as condições e combinou crescimento econômico, ampliação do mercado interno, contenção de inflação e acumulação de reservas. Por isso a economia nacional atravessou a crise sem grandes danos e voltou a expandir-se em pouco tempo. Mas a situação fiscal será menos favorável no próximo ano e a blindagem do setor externo será menos forte, com o déficit em conta corrente avançando para US$ 60 bilhões.

O espaço de manobra será mais estreito e as decisões de governo, muito mais arriscadas do que foram durante vários anos. Neste ano o Brasil ainda tem sido ajudado pela evolução dos preços de produtos básicos.

Isso tem compensado, em parte, a tendência de redução do superávit comercial. Mas o mercado de matérias-primas e bens intermediários tem sido sustentado principalmente pela demanda chinesa e de algumas economias emergentes. Quem pode ter alguma segurança, hoje, quanto às condições desse mercado nos próximos dois anos?

A reação da economia nos Estados Unidos ainda é a melhor notícia do mundo rico. A primeira revisão das contas americanas do primeiro trimestre apontou um crescimento equivalente a 3% ao ano, pouco abaixo da estimativa anterior (3,2%). O consumo foi menos vigoroso do que se havia calculado anteriormente. Mas os dados são muito mais animadores que os da Europa.

O presidente Barack Obama pediu ao Congresso mais US$ 200 bilhões para programas de estímulo econômico. O efeito dos incentivos anteriores parece estar em grande parte esgotado e a demanda interna ainda não é bastante forte para se dispensar um impulso adicional.

Ao divulgar a nova doutrina de segurança nacional, o presidente Obama vinculou explicitamente a recuperação da economia à manutenção do poder militar e ao reforço da posição internacional dos Estados Unidos. "No centro dos nossos esforços está o compromisso de renovar a nossa economia, fonte do poder americano", segundo o texto divulgado pelo governo.

Essa renovação econômica envolverá a recuperação das contas públicas, com a redução gradual do déficit fiscal e do peso da dívida acumulada pelo Tesouro. O governo americano tem mais espaço que os europeus para combinar ajuste e crescimento.

Mas o cenário na União Europeia tenderá a piorar, se não for encontrado um equilíbrio entre as políticas de recuperação econômica e de arrumação das contas públicas, disse o secretário-geral da OCDE, Angel Gurría.

A dívida pública das economias desenvolvidas deve superar 100% do PIB em 2011, segundo a OCDE. Já superou essa marca em alguns países e a situação se agrava em vários outros. Programas de ajuste foram anunciados por vários governos. Reino Unido, Itália, França, Espanha, Portugal e Alemanha já entraram no caminho do aperto orçamentário. A situação alemã é muito melhor que a dos demais países europeus, mas, ainda assim, o déficit orçamentário supera o limite de 3% do PIB.

No Reino Unido, o corte de gastos de 6,25 bilhões foi a primeira medida do novo governo. O déficit do Tesouro equivale a 11,5% do PIB e é um dos maiores da Europa. O ajuste será penoso.

Com os europeus empenhados em fechar rombos orçamentários, o desemprego no mundo rico deverá ficar em cerca de 9% em 2010 e poderá chegar a 8,5% no fim de 2011.Os Estados Unidos serão o único país desenvolvido a dar alguma contribuição ao crescimento mundial. O resto dependerá dos emergentes, mas a China talvez não escape de um ajuste. O rescaldo da crise ainda será longo e difícil.

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