O luto como arma política

No mundo ideal do chavismo, as coisas se passariam assim: depois de enfrentar filas quilométricas sob o sol equatorial para contemplar o corpo do caudilho exposto em câmara-ardente na capela da Academia Militar de Caracas, a massa de adeptos do regime bolivariano seguiria diretamente para os postos eleitorais, onde completaria essa jornada de arrebatadoras emoções sufragando o sucessor ungido por Hugo Chávez, o vice confirmado como presidente interino, Nicolás Maduro. Foi para aproximar o máximo possível esse cenário mágico da realidade que ele anunciou a decisão de estender pelo menos por sete dias os ritos fúnebres que deveriam terminar ontem, com o sepultamento do caudilho.

O Estado de S.Paulo

09 Março 2013 | 02h10

Aliás, ele não será sepultado jamais, a depender dos chavistas: terá o destino dos históricos líderes comunistas, Lenin, Ho Chi Minh e Mao Tsé-tung, cujos cadáveres mumificados podem ser vistos em Moscou, Hanói e Pequim. Ao citá-los, Maduro omitiu o nome do ditador soviético Josef Stalin. Isso porque, em 1961, os seus sucessores entenderam que o antigo "guia genial dos povos" não merecia, por seus crimes, estar de corpo presente no panteão dos construtores do socialismo. Chávez, o inventor do "socialismo do século 21" ficará no sarcófago de cristal que o espera no Museu Histórico da Revolução, em Caracas.

Enquanto lá ficar, o culto póstumo à sua personalidade bem poderá incluir, incentivada pelos dirigentes de turno, a imitação de um hábito que ainda persiste na capital russa, onde recém-casados fazem o rápido giro litúrgico pela urna que contém a múmia de Lenin. Não será surpresa se o regime for ainda além: assim como Stalin deu o seu nome à cidade de Tsarytsin e rebatizou Petrogrado de Leningrado, e ainda como os comunistas transformaram Saigon, a antiga capital do Vietnã do Sul, em Cidade de Ho Chi Minh, Caracas talvez se passe a chamar Ciudad Chávez.

Uma coisa é certa: os herdeiros do autocrata não deixarão escapar nenhuma oportunidade de se amparar no mito para se legitimar no poder.

O passo inicial, naturalmente, é derrotar fragorosamente o candidato oposicionista Henrique Capriles na eleição de abril. Uma série de movimentos concatenados aponta nessa direção. Primeiro, a enormidade proclamada por Maduro de que os "inimigos históricos" de Chávez foram os responsáveis pelo câncer que o mataria 20 meses depois de diagnosticada a doença. Segundo, a promoção do vice a presidente provisório. Pela Constituição venezuelana, tendo o chefe do governo morrido antes de ser empossado, caberia ao titular da Assembleia Nacional, no caso Diosdado Cabello, substituí-lo até a eleição do sucessor, em até 30 dias. Mas a lógica da consolidação do regime, na pessoa do número dois de Chávez, passa ao largo desse detalhe. É Maduro quem precisa ficar no Palácio Miraflores para sair consagrado das urnas.

Em terceiro lugar, mas não necessariamente por fim, vem a prorrogação por decreto do velório de Chávez, para impedir que arrefeça o clima de transbordamento emocional destes dias; retardar o início oficial da campanha, em óbvio prejuízo de Capriles; e obrigar o opositor a moderar, a ponto de liquefazer, as suas críticas ao regime. É vital para Maduro que o adversário não volte a ter os respeitáveis 45% de votos da disputa de outubro com o caudilho. Nas eleições regionais de dezembro no país, apenas seis dias depois do que viria a ser a última internação de Chávez em Cuba, os sentimentos desatados com a revelação de sua quarta recaída despojaram a oposição de quatro dos sete Estados sob o seu controle. Em um deles, o de Miranda, o governador Capriles conseguiu se reeleger, mas quase a metade do eleitorado não foi votar - incluindo decerto expressiva parcela de antichavistas desalentados.

Se a vitória de Maduro é certa, isso não significa que a transição para o pós-Chavez será tranquila. A recriação, na Venezuela, da antiga "ditadura perfeita" mexicana dependerá da coesão e da coragem do novo governo diante da crise econômica do país. Não está claro se terá uma coisa ou outra.

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