O malabarismo do ajuste

O maior espetáculo do momento é a exibição de malabarismo da equipe econômica. De um lado do picadeiro, o ministro da Fazenda tenta controlar as contas e a dívida públicas. Com a economia em retração e a receita fraca, o trabalho fica muito mais complicado, ainda mais depois de quatro anos de gastança, muitos erros e muitas pedaladas.

O Estado de S. Paulo

24 Junho 2015 | 03h00

De outro lado, o presidente do Banco Central (BC) procura sufocar a inflação com juros altos e crédito apertado. Juros elevados levam algum tempo para frear os preços. Mas tornam a atividade mais deprimida e ainda encarecem a dívida e pioram a situação do Tesouro. Sozinha, cada uma das duas tarefas – o conserto das finanças do governo e o controle da alta de preços – já seria muito difícil, nas condições do Brasil. Realizá-las ao mesmo tempo é façanha para ser cantada em versos na literatura de cordel.

Por enquanto, a história é contada na prosa comum dos comunicados oficiais e do noticiário da imprensa. Assim, na terça-feira passada o distinto público foi informado de um par de recordes. Em maio, a taxa média cobrada do consumidor chegou a 57,3% ao ano, o maior custo registrado a partir de março de 2011, início da atual série. Sensível a partir do ano passado, o arrocho monetário imposto pelo BC tem dificultado a vida de consumidores e de empresas.

Já muito debilitada, a economia entrou em retração, o desemprego subiu, o consumo caiu e até o setor de serviços, ainda resistente há pouco tempo, começou a reduzir o pessoal.

O outro recorde foi relatado pelo Tesouro. De abril para maio, o custo médio da dívida pública federal – interna e externa – passou de 13,6% ao ano para 14,03%. O custo da dívida mobiliária interna subiu de 12,42% para 12,58%, o nível mais alto desde 2011. Essa variação reflete dois fatores: o aumento da taxa básica de juros, a Selic, e a aceleração da alta de preços. A elevação do custo ocorreu tanto para os papéis vinculados à Selic quanto nos atrelados à inflação.

Também a dívida externa ficou mais cara, em maio, por causa da valorização do dólar. O estoque total da dívida cresceu de R$ 2,45 trilhões para R$ 2,49 trilhões. A parcela devida a estrangeiros (R$ 124,2 bilhões) aumentou 5,5% simplesmente por causa do câmbio, porque nenhuma nova emissão foi realizada.

O aumento de juros leva um bom tempo para derrubar a inflação, mas afeta rapidamente as contas do governo. Os diretores do BC reafirmaram há poucos dias a intenção de levar a inflação à meta de 4,5% até o fim de 2016. No mercado ainda se projeta para o próximo ano uma alta de preços de 5,5%. Se o pessoal do BC insistir na promessa, provavelmente deverá continuar elevando a taxa básica. A Selic já está em 13,75% e, segundo a projeção do mercado, chegará a 14,25% até o fim do ano. Para o fim de 2016, a previsão é de uma taxa de 12%.

Poucos devem acreditar, nesta altura, numa inflação de 4,5% até dezembro de 2016 e na meta fiscal fixada para 2015, um superávit primário de R$ 66,3 bilhões ou cerca de 1,1% do Produto Interno Bruto (PIB). Com a paradeira econômica e a receita decepcionante, o governo tem uma excelente razão, segundo muitos analistas, para baixar a meta do superávit primário, o dinheiro destinado aos juros da dívida. Com os juros altos, alcançar o alvo é ainda mais difícil. Os argumentos, segundo informações, já foram assimilados pelo Ministério da Fazenda.

Para buscar um alvo mais modesto na política fiscal o governo precisará, no entanto, verificar se a alteração será aceita pelas agências de classificação de risco. Se o País for rebaixado – e, pior, se perder o grau de investimento –, o financiamento da dívida pública ficará mais difícil e o ajuste será muito doloroso. Se for bem aceita, a mudança da meta fiscal será uma decisão sensata.

Do lado monetário, uma pausa na alta de juros poderá facilitar a gestão da dívida pública. Mas, se a decisão prejudicar a credibilidade do BC, a expectativa de inflação será afetada. É preciso avaliar os custos. Em qualquer caso, será preciso prolongar o número de malabarismo para conciliar as políticas da Fazenda e do BC.

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