O mercado contra o mundo

Com o melhor desempenho desde o início de 2006, a economia americana cresceu no segundo trimestre em ritmo equivalente a 3,4% ao ano. O investimento produtivo aumentou - um sinal de confiança dos empresários - e mais empregos foram criados entre abril e junho, enquanto a inflação arrefeceu. Esses números foram divulgados na manhã de sexta-feira pelo Departamento de Comércio dos Estados Unidos. Um dia antes o Fundo Monetário Internacional (FMI) havia apresentado uma avaliação otimista da economia global e de suas perspectivas para 2008. Os mercados de capitais, no entanto, encerraram a semana como se a economia global estivesse cambaleante. Na quinta-feira, as cotações haviam despencado na maior parte das bolsas de valores. A Bovespa, como de costume, seguiu a onda, apesar dos indicadores favoráveis da economia brasileira mostrados também pela nova sondagem da Confederação Nacional da Indústria (CNI). O quase pânico no mercado global de capitais parece refletir, mais uma vez, dois fatores bem conhecidos. Um deles é o comportamento de manada. O outro é a tendência ao exagero na avaliação das boas e das más notícias. No caso, as más notícias foram os sinais de problemas no mercado imobiliário dos Estados Unidos e a alta dos preços do petróleo. Nenhuma das duas foi surpresa. As dificuldades no mercado americano de hipotecas são conhecidas há meses, mas não surgiu, até agora, nenhum sinal inequívoco de um aperto geral do crédito. A insegurança dos investidores, nos últimos dias, levou à suspensão de grandes lançamentos de títulos tanto privados quanto públicos. Houve fuga dos papéis de economias emergentes, mas houve sinais de melhora nesse mercado na sexta-feira, num ambiente de muita instabilidade. Curiosamente, o investimento na construção habitacional, no segundo trimestre, foi menos afetado pelos temores, nos Estados Unidos, do que havia sido no primeiro. Entre abril e junho esses investimentos diminuíram 9,3% em termos anualizados. De janeiro a março haviam caído 16,3%. Há uma situação de risco nesse mercado e é preciso tomar a turbulência no setor financeiro como um alerta, disse em Washington o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Henry Paulson. Mas também é preciso, acrescentou, levar em conta a pujança da economia mostrada pelos últimos números. Essa pujança foi comprovada pelo aumento de 22,1%, em termos anualizados, dos investimentos em plantas empresariais, a maior taxa registrada em 13 anos. Além disso, as empresas trataram de recompor seus estoques no segundo trimestre e as exportações cresceram vigorosamente, acompanhando a crescente demanda nos mercados globais. Não há, por enquanto, sinal de arrefecimento dessa demanda. O FMI elevou de 4,9% para 5,2% a sua estimativa de crescimento econômico mundial tanto neste ano quanto no próximo. A expansão vem-se tornando muito mais difusa do que foi até há alguns anos, quando a economia global era puxada quase exclusivamente pelos Estados Unidos, pela China e por alguns países menores da Ásia. Com a recuperação gradual da zona do euro e do Japão, e com o novo dinamismo revelado pela Índia, pela América Latina, pelo Leste da Europa e até pela conturbada África, o crescimento mundial tornou-se mais equilibrado e, tudo indica, muito mais seguro. Para a África ao Sul do Saara, o Fundo Monetário Internacional estima expansão de 6,9% neste ano e de 6,4% no próximo. Se o Fundo estiver correto, as importações do mundo rico aumentarão 4,6% em 2007 e 6% em 2008. As do mundo em desenvolvimento e das economias emergentes deverão crescer 12,8% e 11,1% nesses períodos, com grande contribuição, naturalmente, da China e da Índia.O enorme volume de capitais em circulação no mundo não deverá sumir de uma hora para outra. As condições de crédito poderão estreitar-se, especialmente se o banco central dos Estados Unidos elevar novamente os juros. Mas essa hipótese ainda é especulativa e os últimos dados da inflação não autorizam nenhuma previsão segura. No segundo trimestre, o núcleo da inflação (sem alimentos e sem petróleo) aumentou apenas 1,4%, a menor taxa observada em quatro anos. O mercado financeiro deverá digerir todos esses dados nos próximos dias. Talvez uma boa digestão possa acalmá-lo.

O Estadao de S.Paulo

07 de julho de 2029 | 00h00

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.