O México amedrontado

Medo, desespero e revolta - sentimentos cada vez mais comuns entre os mexicanos diante da ineficácia do governo no combate ao narcotráfico e da reação cada vez mais violenta dos criminosos - estão registrados no editorial em que o jornal El Diario, o mais importante de Ciudad Juárez, no Estado de Chihuahua, pergunta aos grupos de traficantes o que querem ver publicado em suas páginas. O editorial é mais um registro, entre tantos surgidos nos últimos tempos, da situação dramática que vive o México, por causa das baixas produzidas pela guerra contra o narcotráfico.

, O Estado de S.Paulo

23 Setembro 2010 | 00h00

Desde o fim da década de 1990, com o enfraquecimento dos cartéis colombianos, os grupos criminosos mexicanos passaram a dominar o mercado de drogas dos Estados Unidos. Tão logo tomou posse no cargo, em dezembro de 2006, o presidente mexicano, Felipe Calderón, declarou guerra ao narcotráfico, nela empregando forças da Polícia Federal, do Exército e da Marinha. Apesar das prisões de alguns dos principais traficantes, os cartéis mexicanos respondem com violência cada vez maior às ações do governo.

Estima-se que, desde seu início, a guerra contra o narcotráfico já tenha provocado 35 mil mortes, não apenas de pessoas diretamente envolvidas nos combates - policiais, militares e traficantes -, mas também de civis sem nenhuma ligação com os grupos criminosos, inclusive mulheres e crianças. Pelo menos 95% dos assassinatos continuam sendo de autoria desconhecida.

O caso mais chocante foi descoberto no mês passado, quando um imigrante equatoriano - um sobrevivente da matança - revelou a execução de 72 estrangeiros que tentavam entrar ilegalmente nos Estados Unidos, entre os quais pelo menos dois brasileiros, por um grupo de traficantes conhecido por Los Zetas, que queria recrutá-los como matadores de aluguel. O crime ocorreu no Estado de Tamaulipas.

As execuções de agentes federais, os assassinatos cometidos nos últimos anos e o crescente tráfico de drogas e armas tornaram Ciudad Juárez - separada de El Paso, no Texas, pelo Rio Bravo - conhecida como "a cidade mais perigosa do mundo". Por medo de represálias dos grupos criminosos, os jornais locais, assim como parte da imprensa do resto do país, pouco têm noticiado sobre suas ações. Não é o caso de El Diario. Por isso ele se tornou alvo dos criminosos.

Na semana passada, dois repórteres fotográficos do jornal foram atacados por pistoleiros quando chegavam a um restaurante. Um deles, Luis Carlos Santiago Orozco, foi morto na hora, outro ficou gravemente ferido. Em 2008, outro profissional do jornal, o repórter policial Armando Rodríguez, fora assassinado quando saía de casa para levar a filha à escola. No ano seguinte, o policial que investigava o crime também foi assassinado. Os assassinos não foram identificados.

[ ]Di[/ ]ante do vazio de poder em Chihuahua, "não há garantias para que os cidadãos desenvolvam suas vidas e suas atividades com segurança" e o jornalismo "tornou-se uma das profissões mais perigosas", diz o jornal.

Numa crítica ao governo, o editorial do jornal reconhece que os criminosos "são, nesse momento, as autoridades de facto na cidade, porque os poderes instituídos legalmente não conseguem fazer nada para impedir que nossos companheiros continuem sendo executados", e lhes pede que digam "o que querem de nós, o que pretendem que publiquemos ou deixemos de publicar".

O governo reagiu com irritação, afirmando que não aceita nenhuma forma de trégua com o narcotráfico e que continuará a combatê-lo com o rigor possível. Quanto ao trabalho da imprensa, assegurou que qualquer agressão contra os meios de comunicação será combatida "como uma afronta à sociedade inteira e à nossa democracia". Ninguém pode duvidar das intenções do governo mexicano. Mas o fato é que mais de 30 jornalistas foram mortos desde o início da guerra contra o narcotráfico - o que torna o México um dos países mais perigosos do mundo para o trabalho jornalístico, de acordo com o Comitê para a Proteção de Jornalistas.

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