O México e o Brasil

Desafio atual é cumprir os 17 objetivos da Aliança para o Desenvolvimento Sustentável

*Salvador Arriola, O Estado de S.Paulo

09 Outubro 2017 | 03h00

Revisando a memória histórica, neste ano de 2017 se comemora o aniversário de vários acontecimentos relevantes da relação bilateral México-Brasil. Um marco na relação política e cultural foi a visita que fez o secretário de Educação Pública do México José Vasconcelos ao Rio de Janeiro em 1922, por ocasião do centenário da Independência do Brasil. As relações entre México e Brasil adquiriram a partir de então uma nova dimensão, com um nutrido intercâmbio que aproximou acadêmicos, artistas e pensadores dos dois países.

A missão Vasconcelos deixou um legado significativo na relação bilateral, a estátua do último imperador asteca, Cuauhtémoc, no Rio de Janeiro, réplica da que fica na cidade do México. O Cuauhtémoc carioca foi inaugurado pelo próprio Vasconcelos e pelo presidente Epitácio Pessoa, em setembro de 1922.

O ano de 1922 é emblemático para a cultura latino-americana pelos movimentos artísticos que, quase simultaneamente, surgiram no México e no Brasil. Em São Paulo, a Semana da Arte Moderna inaugurava o modernismo brasileiro, com escritores e artistas como Mário e Oswald de Andrade, Ronald de Carvalho, Anita Malfatti, Tarsila do Amaral e Heitor Villa-Lobos, enquanto no México o muralismo se consolidava com o surgimento da União Revolucionária de Operários Técnicos, Pintores, Escultores e Afins.

Poucos anos após sua visita ao Brasil, José Vasconcelos publicou seu célebre ensaio La Raza Cósmica (1925), apresentando uma visão entusiasmada sobre o futuro dos povos ibero-americanos e o papel central que teriam para fundar uma “era universal da humanidade”. Vasconcelos não omite mencionar a avassaladora impressão que lhe deixou o Brasil, que conhecera algum tempo antes, e que era um sublimado dessa nova raça cósmica que os ibero-americanos representariam, com seu cadinho étnico e a abundância de recursos.

Nestes tempos em que ressurgem a ignorância, o ódio racial e religioso, vale recordar a mensagem da raça cósmica: “Nenhuma raça contemporânea pode se apresentar por si só como modelo acabado que todas as outras hão de imitar”. Nem na Antiguidade nem no presente, dizia-nos Vasconcelos, “existiu jamais o caso de uma raça que se bastasse a si mesma para forjar civilização”.

Em 29 de abril de 1963 deu-se a conhecer simultaneamente no México, na Bolívia, no Brasil, no Chile e no Equador o texto da Declaração Conjunta sobre Desarmamento Nuclear da América Latina, com a finalidade de estabelecer o primeiro tratado de desarmamento nuclear pelo qual os Estados se comprometeram a “não fabricar, receber, armazenar nem testar armas nucleares ou artefatos de lançamento nuclear”.

A adoção dessa declaração se deveu à iniciativa do presidente do México Adolfo López Mateos, originada pela chamada crise dos mísseis de 1962, que esteve a ponto de desencadear um conflito mundial com repercussões inimagináveis. O presidente João Goulart foi o primeiro a responder positivamente à declaração, o que confirmava o que ambos países tinham expressado como membros do Comitê de Desarmamento: que suas aspirações comuns eram a favor de desnuclearizar a América Latina.

As negociações deram lugar, em fevereiro de 1967, à assinatura do Tratado para a Proscrição das Armas Nucleares na América Latina e no Caribe, mais conhecido como Tratado de Tlatelolco. O 50.° aniversário desse tratado foi celebrado em fevereiro na sede do Organismo para a Proscrição das Armas Nucleares (Opanal), na presença do presidente do México, Enrique Peña Nieto, e do secretário-geral do organismo, o embaixador brasileiro Luiz Filipe de Macedo Soares, reeleito por aclamação para um segundo mandato. Ele fez uma homenagem a todos os que participaram daquela façanha, em particular ao embaixador Alfonso García Robles, que por seu dedicado trabalho recebeu em outubro de 1982 o Premio Nobel da Paz.

Hoje no mundo se agrava novamente a tensão nuclear. Uma oportunidade única para responder a esta incerteza preocupante é a assinatura do Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares, que se abriu para assinaturas no último dia 20 de setembro na Assembleia-Geral das Nações Unidas. O México e o Brasil promoveram essa iniciativa, que envolveu 122 países e aguarda a resposta e a vontade política daqueles que produzem e mantêm essas armas.

Entre 1961 e 1964 Alfonso Garcia Robles era embaixador do México nestas terras que assombraram Vasconcelos e seguramente inspiraram don Alfonso para que com seus companheiros brasileiros do Comitê de Desarmamento iniciassem e culminassem a cruzada latino-americana e caribenha em favor da paz.

“Estou convencido de que para todo aquele que se preocupe com o porvir da América Latina e veja nela um fator de potencial influência decisiva para o mundo de amanhã resultará evidente a transcendência que pode revestir uma estreita cooperação internacional entre México e Brasil. Além disso, como países em processo de desenvolvimento, México e Brasil atravessam ambos um período em que têm que fazer frente a problemas quase idênticos e que buscam soluções que são no fundo forçosamente análogas. Daí que, tanto na ordem interna quanto na internacional, seus ideais e propósitos ofereceram uma similaridade tal, que com frequência faz pensar na absoluta identidade.” Essas palavras foram ditas por Alfonso García Robles, dois meses após ter tomado posse como embaixador do México, mas refletem hoje nossos mesmos propósitos.

O atual desafio para o México e o Brasil é cumprir os compromissos contidos nos 17 objetivos da Aliança para o Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030, o que não só contribuirá para reduzir de forma significativa a desigualdade dentro de nossas sociedades, mas também será um aggiornamento dos conceitos e projetos concebidos pelo embaixador e Prêmio Nobel da Paz mexicano.

*EMBAIXADOR DO MÉXICO NO BRASIL

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