O ministro queimou a língua

Falar é barato (talk is cheap), dizem os americanos. Falar é fácil, dizemos nós, brasileiros. Tanto faz um ditado ou outro: eles não aprendem nunca. Eles, naturalmente, são os políticos, que dão o dito pelo não dito com uma naturalidade impensável em qualquer outro setor da atividade humana. As mais recentes expressões dessa forma de apagão verbal, que embute um sonoro desrespeito pela opinião pública, têm o timbre de voz do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, e, especialmente, do novo ministro da Defesa, Nelson Jobim. O assunto, como não poderia deixar de ser, é a crise aérea.Três dias depois da tragédia de Congonhas, quando enfim quebrou o seu silêncio ensurdecedor sobre a segunda catástrofe do gênero em 10 meses, Lula anunciou, entre outras medidas para normalizar o sistema de aviação comercial no País, a construção de um novo aeroporto na região de São Paulo, em um local a ser definido em 90 dias. Procurada naquela mesma sexta-feira para falar disso, a ministra foi cortante com os repórteres: "Nós jamais (sic) diremos onde será o novo aeroporto. Não somos fatores de especulação imobiliária." Parecia não apenas que a decisão era para valer, como também que o governo tinha já alternativas em estudo.Foi só falatório - a marca de Caim da era Lula. Anteontem, na reunião do grupo de coordenação política do governo, conduzida pelo presidente, a idéia foi remetida à repleta e empoeirada pasta "Soluções de longo prazo". Prevaleceram, afinal, as objeções do governador paulista José Serra, que desde a primeira hora considerou a medida "pouco sensata" e disse isso ao seu amigo muito próximo Nelson Jobim. A questão, esclareça-se desde logo, não é que o governo - especificamente, o Conselho Nacional de Aviação Civil (Conac) - tomou uma decisão muito sensata e dela recuou 10 dias depois porque um governador a criticou, ou por alguma obscura razão.O Planalto fez a coisa certa ao despachar a intenção para as calendas. O ponto é que pela enésima vez sob o lulismo prevaleceu a precipitação. Ou porque os autores da idéia são insensatos ou porque o presidente precisa mostrar serviço - da boca para fora, como de costume. Agora, na mais recente rodada do torneio de palavras ao vento, disputado em Brasília, quem subiu ao pódio foi o titular da Defesa. Não há quem já tenha esquecido as trovejantes declarações de Jobim ao substituir Waldir Pires, que nunca logrou levantar vôo no cargo. "A história registra o que fazemos e o que deixamos de fazer", se pôs a ensinar. "Faça ou vá embora." Na imprensa, a altissonância rivalizou com a afirmação de que ele tinha recebido "carta branca" do presidente.Nem tanto, agora se vê. Estreando na Defesa, Jobim não mediu palavras - acertadamente, aliás - ao criticar a diretoria da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) por seu desastroso desempenho. De fato, enquanto a avidez das empresas aéreas pelo lucro fazia Congonhas transbordar, o órgão responsável pela fiscalização do setor parecia olhar para o outro lado. Disse o ministro que a agência deixava a desejar porque as suas funções técnicas estavam em mãos de apadrinhados políticos. Era, nas suas palavras, um "problema legal" - alusão à impossibilidade de demiti-los por terem mandato fixo e estável. Mas deixou claro que gostaria que renunciassem.Enganaram-se os que pensavam que Jobim fazia uso da alardeada carta branca que Lula lhe teria concedido. Ele somente engrossava uma tendência que dava a impressão de predominar no Planalto. A facção empenhada em defenestrar da direção da agência o profissional de turismo Milton Zuanazzi, cujo mandato vai até 2011, plantou na imprensa a informação de que o governo articulava a renúncia dele e dos seus companheiros de diretoria, os quais, como prêmio de consolação, seriam contemplados em outras áreas da administração federal. Chegou-se a noticiar que apenas a diretora Denise Abreu se negava a atender ao governo. Só que em poucos dias a corrente pró-Anac empatou o jogo. Foi o bastante para que o presidente Lula tornasse a fazer o que lhe é mais confortável, resolvendo novamente não resolver coisa alguma. A diretoria da Anac fica e o ministro da carta branca queimou a língua.

O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2001 | 00h00

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