O mistério de Marina

No domingo passado, após reunião plenária em São Paulo, o Partido Verde (PV) desfraldou a imaterial bandeira da neutralidade. A agremiação não apoiará nem Dilma nem Serra no segundo turno. Fleumático em meio à guerra aberta da campanha, o PV quis ser também magnânimo e, do alto de sua olímpica ataraxia eleitoral, "liberou" seus filiados para se bandearem para o lado que bem quiserem. Feldmann e Gabeira, por exemplo, acharam lugar no poleiro dos tucanos, apesar das bicadas selvagens tão características daquele ninho. Alguns outros cerraram fileiras no rousseffismo de resultados, apesar dos meios pouco ecológicos que ali prosperam. Entre as tantas lições inusitadas da atual disputa, há agora esta: até mesmo o verde pode cair de podre.

Eugênio Bucci, O Estado de S.Paulo

21 Outubro 2010 | 00h00

Marina, diferentemente de seus correligionários, não foi para um lado nem para o outro. Não caiu de podre. Não caiu no colo do PSDB e também não caiu na armadilha do rousseffismo. Ficou na dela. Impassível, embora sorridente, invocou a garantia constitucional da inviolabilidade do voto: "O voto é secreto e para manter a minha independência no processo político vou reservar esse direito de eleitora." Em miúdos: o voto da candidata à Presidência da República que conquistou 20% do eleitorado agora é segredo. Ela não conta a ninguém. Mantê-lo assim, à sombra de seu mistério, é seu direito.

Termina dessa forma, em dispersão errante e contente, a vigorosa aparição do PV e de sua candidata nas eleições de 2010. Tudo bem que era um desfecho previsível, já antevisto por todo mundo. Tudo bem que fossem favas já cantadas (e contadas). Mesmo assim, o gosto desgostoso de anticlímax foi pior que o anunciado. A neutralidade - ela também um direito, não se discute - poderia vir acompanhada de uma crítica radical aos outros dois. Não veio. Se comparada aos motivos dos eleitores que viram em Marina uma via de superação do desenvolvimentismo bruto e por vezes brutal de Dilma ou Serra, o discurso final do PV foi pouco mais que protocolar. Deixou no ar esta discrepância amarga que denota uma precariedade de princípios: entre o vigor que a campanha de Marina procurou, no primeiro turno, concentrar contra as estratégias de seus adversários e a atitude posterior, de quase complacência, qual é a atitude mais autêntica? Se o discurso anterior era verdadeiro em sua contundência, por que tanta brandura ao final?

A pressa de expoentes verdes em alcançar lugar na janelinha no vagão dos adversários de ontem também desconcerta o eleitor. Reconheça-se que ao menos desse papel Marina soube poupar-se, o que lhe preserva a aura de dignidade política. Ela, pelo menos ela, recusou-se a se misturar ao que chamou de "fiadores do conservadorismo renitente". Menos mal.

Mas poderia ter sido melhor, muito melhor.

As posições antípodas que os estilhaços do PV ocupam no tabuleiro conturbado do segundo turno são, no mínimo, um desalento. No alto, paira a figura de Marina Silva. Ou melhor: não paira, tenta pairar. Por vezes, ela lembra a estátua de uma santa que se desequilibra sobre ombros de fiéis agitados, numa procissão em polvorosa, sem unidade nem direção: se todos saírem correndo, a santa de gesso vai-se espatifar no chão de paralelepípedos. Numa comparação profana, ela lembra o carro alegórico da escola de samba que imediatamente após o desfile é esquecido no acostamento pelos passistas, que vão prolongar a folia em outras paragens.

Nunca a exuberância frágil de Marina Silva foi tão pálida e tão vulnerável. Não apenas parecem faltar-lhe as bases, que agora debandam para outras procissões, como, pior ainda, há uma inconsistência etérea na sua manifesta reivindicação de que o voto é secreto e a ninguém será dado conhecê-lo. Embora ela tenha esse direito - e respeitemos as garantias constitucionais, nem que seja apenas nisso -, é o caso de perguntar se ela pode, neste momento, esconder-se atrás de seu direito.

Bem se sabe que para ela é difícil - com perdão da expressão, é uma sinuca de bico. Se rousseffar a esta altura, todo o empenho que a levou a se libertar do jugo do governo terá sido em vão: ela voltará à casa que a recusou, num clima de reconciliação com o que um dia julgou inaceitável. Se, de outro lado, for se hospedar junto aos tucanos, pobre dela: terá feito jus às acusações de que, durante esse tempo todo, só fez servir aos interesses da oposição. Não dá. Ela precisa ficar fora dos dois cortejos. Não pode sobreviver se não ficar fora. Mas será que alegar que "o voto é secreto" lhe resolve a fatura?

Se ela tem direito ao segredo do voto, como tem, registre-se que há outro direito, este inscrito no plano político, não na letra da lei, que é o direito do seu eleitor de saber o que ela fará no momento em que o Brasil toma uma decisão tão grave. Não posso falar em nome desse eleitor, não o represento, mas ele terá dificuldade de entender como é que alguém que disputou a sério a Presidência da República simplesmente se omite no segundo turno. Marina poderia declarar que votará em branco. Poderia dizer que, entre Dilma e Serra, prefere ficar com nenhum dos dois. Ou decidir-se por um deles, dizendo tratar-se do "menos pior". Qualquer das alternativas seria melhor do que silenciar. Marina é uma liderança e é razoável que seus liderados alimentem a expectativa de saber o que ela deliberou no foro íntimo de sua individualidade.

Enquanto se avolumam os escândalos - ainda ontem à tarde surgiram novos indícios de que houve motivação política no vazamento dos dados de dirigentes do PSDB na Receita Federal -, o enigma de Marina Silva mais confunde do que esclarece o eleitor. O que fará ela? Será que decidiu a anular o voto? Se sim, por que não dizê-lo e expor com franqueza a esterilidade da escolha que se apresenta?

Perguntas respondidas com o vazio. O mistério de Marina, com seu ar de superioridade, só serve para manter a unidade artificial de um PV desunido. E para plantar a dúvida onde deveria haver transparência. Voluntária.

JORNALISTA, É PROFESSOR DA ECA-USP E DO CURSO DE PÓS EM JORNALISMO (LATO SENSU) DA ESPM

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