O monstro delicado

É possível que o leitor já tenha ouvido os comentários a seguir

PEDRO CAVALCANTI*, O Estado de S.Paulo

06 Agosto 2018 | 04h00

É possível que o leitor já tenha ouvido os comentários a seguir, que transcrevo sem julgá-los. Seus autores não são os muito pobres vivendo ao relento da própria miséria nem os muito ricos isolados em ilhas. Têm alguma instrução, mas andam desorientados. Não os identifico, pois são comentários colhidos ao acaso.

- Não sei o que são embargos infringentes. Não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe. Também não entendo boa parte do obscuro jargão usado na televisão pelos juízes do Supremo Tribunal Federal, a começar por prescrição intercorrente, perempção, fungibilidade, soberania de Vestfália.

- Não vejo, aliás, por que me envergonharia de tal ignorância, pois estes próprios magistrados se dividiram em duas turmas irreconciliáveis sobre temas básicos.

- Esta é, aliás, uma parte pequena da minha ignorância. Nunca entendi por que tanto se fala em taxa Selic, se ela não parece ter qualquer relação com os juros cobrados pelos bancos na vida real.

- Dizem, agora, que muitos problemas nossos se resolverão nas próximas eleições, a começar pelo fim do empreguismo no serviço público. Parece uma excelente ideia. Concordo plenamente com que ministros da Saúde ou da Educação devam ter algum conhecimento e experiência prática relativa a esses assuntos.

- Mas tudo tem limites. Se existem cargos de confiança, a lógica indica que, para ocupá-los, devem ser nomeadas pessoas de confiança. Nepotismo é uma coisa, confiança baseada em amizades forjadas na partilha de ideais de juventude ou no conhecimento do caráter é ou deveria ser outra coisa.

- Falo francamente: se eu fosse nomeado presidente de uma estatal qualquer, minha primeira iniciativa seria chamar os amigos da velha guarda, perguntar se alguém estava passando necessidade.

- Se eu vivesse na Suécia, essa atitude não seria aconselhável nem possível. Vivemos, no entanto, no Brasil, em meio a gente de carne e osso. Se um político influente fica sabendo de um amigo morrendo de câncer na fila do SUS e não estende a mão para o telefone à procura de uma vaga para a internação, não merece o voto de ninguém. É uma questão de caráter, que nada tem que ver com opiniões de direita ou esquerda. Infelizmente, até questões de caráter têm sofrido com os efeitos colaterais da Operação Lava Jato.

- Para tornar mais eficiente a técnica de investigações, as delações premiadas acabaram transformando traidores em heróis, deixando de lado noções como solidariedade e fidelidade entre amigos e companheiros, noções que, queiram ou não, sempre fizeram parte da civilização brasileira.

- No início da Lava Jato, fui um apoiador entusiasta e até hoje considero que foi das melhores coisas que nos aconteceram. Mas confesso que o elogio das punhaladas pelas costas entre amigos, a impressão de que ninguém se elege sem caixa 2, que todos os políticos são farinha do mesmo saco me causaram um enorme desalento. As eleições se aproximam em meio a um nevoeiro político que encobre um futuro cada vez mais incerto.

- Sempre votei de cabresto seguindo o candidato indicado por amigos a quem respeito e que gostam de política. Pretendo continuar da mesma maneira. Nunca pensei, aliás, em outra opção. Não conheço pessoalmente nenhum candidato a vereador, deputado estadual, federal ou senador e, francamente, não vejo como poderia me informar.

- Certamente, não será pelos programas de propaganda eleitoral. O fato de os candidatos defenderem pontos de vista com os quais eu concordo ou discordo pouco tem que ver com o que eles pensem realmente e pretendem realizar. Sei como funciona a política: durante a campanha, beijo nas crianças da periferia e pastel de feira. Terminada a eleição, muro alto e cachorro bravo.

- Dizem-me que sempre haverá maneiras de checar o que foi efetivamente realizado por diferentes governos. Quem conhece médicos ou professores da rede pública, gente sofrida e muitas vezes idealista, poderá ter uma ideia sobre se as coisas estão realmente melhorando ou piorando. Acredito que sim. Mas não conheço pessoalmente nenhum médico ou professor da rede pública.

- Também não conheço quem siga a trajetória dos vereadores ou deputados em quem votou. Para falar a verdade, no dia seguinte da eleição já não me recordo do nome de quem votei.

- Votar nos partidos está cada vez mais difícil, pois seus líderes ou estão presos ou ameaçados de ir parar atrás das grades.

- Nem tudo está perdido, dirão os mais otimistas. Ainda temos a grande limpeza política graças aos êxitos da Lava Jato, auxiliada pelo excelente trabalho desenvolvido pela Polícia Federal.

- Infelizmente, me informam agora que, de cada 10 cigarros vendidos no Brasil, 4,5 são contrabandeados do Paraguai. É o novo recorde do chamado exportabando, prática de décadas progredindo diante dos olhos fechados da Polícia Federal. Fumo produzido no Brasil é exportado para o Paraguai e, transformado em cigarros por indústrias locais, é contrabandeado de volta.

- Pode-se argumentar que a Polícia Federal luta contra o exportabando, como luta contra o contrabando de drogas e de armas, e se não obtém maiores êxitos é pela extensão das fronteiras e falta de verbas.

- Mais difícil seria explicar o descaramento como se ostenta em plena Avenida Paulista, a poucos passos do Conjunto Nacional, em São Paulo, um prédio de vários andares integralmente ocupado por cubículos de contrabandistas chineses. Há vários outros na cidade. Poderia dar os endereços. Mas isso seria inútil, pois são mais do que conhecidos. Além do que, minha inocência tem limites. Este pessoal manda prender e anda armado.

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Seria igualmente inútil identificar os autores das opiniões e dos comentários, alguns deles lamentáveis, citados acima. Lembro apenas em tradução livre dois versos extraídos de As flores do mal, do poeta francês Charles Baudelaire: “Você o conhece, leitor, esse monstro delicado / Hipócrita leitor, meu semelhante, meu irmão”.

*JORNALISTA E ESCRITOR. E-MAIL: PRA@UOL.COM.BR

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