O mundo feliz de Mantega

Qualquer inflação até 6,5% deixará o ministro da Fazenda, Guido Mantega, com a consciência leve e a certeza do dever cumprido, a julgar pela entrevista publicada ontem pelo jornal Brasil Econômico. Não importa saber se o resultado poderia ter sido melhor - e poderia, sem dúvida - nos últimos anos, se as autoridades fossem menos lenientes com a alta geral de preços. O governo, disse ele, jamais deixará a inflação ultrapassar a meta, como jamais deixou nos últimos seis anos. Isso é mais que contestável. A partir de 2007, só em dois anos a alta do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ficou perto do objetivo, de 4,5%. Em todos os demais, ficou acima de 5,8%, muito longe, portanto, do alvo oficial. A declaração do ministro seria quase aceitável se aqueles 4,5% fossem apenas o centro da meta, expressão usada com frequência, mas de modo impróprio. O Banco Central (BC), no entanto, estabelece uma clara distinção entre meta e margem. A confusão entre os dois conceitos é só mais um disfarce para a má política.

O Estado de S.Paulo

07 Maio 2013 | 07h13

Um desvio considerável, mas dentro da margem, é desculpável em certas situações. O caso brasileiro é diferente. Outros países - da Ásia e da América do Sul - também foram afetados pela alta das cotações de alimentos e de outras commodities, mas conseguiram desempenho muito melhor que o do Brasil, com inflação menor e crescimento muito maior.

Contra a evidência internacional, o ministro continua atribuindo a inflação brasileira a um choque de oferta. Despreza, assim, outros fatores bem conhecidos e muito mais importantes, como a rápida expansão do crédito, os estímulos ao consumo, a elevação da renda dos consumidores e, é óbvio, a gastança federal, jamais interrompida.

O ministro seguiu no mesmo rumo ao comentar as contas públicas. "Nós cumpriremos à risca as metas fiscais do governo, como sempre fizemos. Sou ministro da Fazenda há sete anos e sempre cumpri à risca as metas", afirmou. Pode ser um problema de memória, mas parece pouco provável. Afinal, ele tem sido coerente, ao longo dos anos, no esforço para disfarçar o abandono progressivo, mas inegável, dos mais respeitáveis critérios da política econômica.

Fiel a esse padrão, ele deixou de mencionar o uso de investimentos - até do discutível Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) - para reduzir a meta fiscal definida na Lei de Diretrizes Orçamentárias. Pior que isso: omitiu o recurso a uma contabilidade cada vez mais criativa - escandalosamente criativa - para fechar as contas no fim do ano.

O mesmo critério valeu para seu comentário sobre a dívida pública. Nenhuma pessoa informada deixaria de notar dois pontos. Primeiro, a dívida líquida pode ter melhorado, de fato, mas uma dose de maquiagem é inegável: alguns grandes ativos correspondem a repasses do Tesouro a bancos federais. Quanto valem realmente esses ativos? Segundo, o ministro da Fazenda, como seus colegas do governo, insiste em comentar só a dívida líquida. Mas a dívida bruta tem crescido. Nesse quesito, a situação de vários países emergentes é bem mais confortável.

Mas o ministro da Fazenda conseguiu superar-se ao falar do comércio exterior. Segundo ele, as importações têm crescido bem mais que as exportações porque o Brasil cresce mais que outras economias. É mesmo? E isso justifica um déficit de US$ 5,74 bilhões em quatro meses e uma semana?

Ele foi além. No ano passado, quando o Brasil cresceu menos (talvez ele tenha ficado com vergonha de mencionar o crescimento de 0,9%), "caiu mais a importação do que a exportação". Alguém deve ter mentido ao ministro. Segundo os dados oficiais, o valor exportado caiu 5,26% no ano passado, enquanto o importado diminuiu 1,37%. Depois, o maior dinamismo da importação vem sendo observado como tendência desde 2007.

O fim da entrevista foi uma obra-prima. "Nós conseguimos isolar a economia da política, de modo que não tem mais o ciclo político." Não há mais - este o sentido dessas palavras - influência de interesses eleitorais nas decisões econômicas. Mentiram de novo para ele - e ele acreditou. Não se pode mais confiar em colegas de governo?

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