O muro de Trump

A separação física entre Estados Unidos e México é apenas parte do pacote que Trump promete implementar para enfrentar o que ele enxerga como uma relação desigual com o vizinho ao sul

O Estado de S.Paulo

27 Janeiro 2017 | 03h00

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, está cumprindo, uma a uma, suas inacreditáveis promessas de campanha. Para os que imaginavam que o peso da realidade da Casa Branca o domesticaria, fazendo-o recuar das inúmeras ameaças que fez na disputa pela presidência, o magnata vem demonstrando que não está – nem nunca esteve – para brincadeira. Sua decisão, anunciada quarta-feira passada, de construir um muro para separar os Estados Unidos do México, com a intenção de frear a imigração ilegal de mexicanos, torna real o que para muitos era apenas uma bravata. Com isso, Trump deixa claro que não se sente limitado por nenhuma consideração política, diplomática, econômica, social ou moral. Para que os Estados Unidos venham “em primeiro lugar”, conforme reiterou na campanha eleitoral, Trump parece disposto a romper todos os laços de seu país com o mundo e com sua própria história. Nada mais apropriado, portanto, do que erguer um muro.

“Vamos construir o muro!”, exclamou Trump em sua conta no Twitter, dirigindo-se, é claro, não aos americanos em geral, mas apenas a seus eleitores. A separação física entre Estados Unidos e México é apenas parte do pacote que Trump promete implementar para enfrentar o que ele enxerga como uma relação desigual com o vizinho ao sul. Se o presidente norte-americano levar adiante o que anunciou em outras ocasiões – e agora tudo leva a crer que ele levará –, milhões de mexicanos sem documentos serão deportados dos Estados Unidos, e o acordo de livre-comércio entre os dois países, conhecido como Nafta (que inclui o Canadá), será denunciado.

O México frequenta os discursos de Trump desde que ele lançou sua candidatura à Casa Branca, em 16 junho de 2015. Naquele dia, sua primeira promessa de campanha foi a de construir o tal muro, para impedir que o México continuasse mandando “traficantes e estupradores” para os Estados Unidos. “O México não é nosso amigo”, bradou Trump, avisando, já naquela ocasião, que o muro deveria ser pago pelos próprios mexicanos.

Anteontem, ele voltou a dizer que o México será o responsável, “de um jeito ou de outro”, pelo financiamento do muro – que deverá custar até US$ 15 bilhões, segundo cálculo da bancada republicana no Congresso, que não está disposta a autorizar esse gasto em meio a vários cortes orçamentários. Em um clima de estupefação geral com as atitudes de Trump, o presidente mexicano, Enrique Peña Nieto, foi à TV para dizer a seus concidadãos que “o México não pagará por nenhum muro”. Trump, então, reafirmou seu profundo desapreço pela diplomacia. Mais uma vez pelo Twitter, o presidente norte-americano partiu para a brutalidade explícita, ameaçando cancelar um encontro com Peña Nieto marcado para o próximo dia 30. “Se o México não está disposto a pagar pelo muro, então seria melhor suspender o encontro”, escreveu Trump. Em resposta, o presidente mexicano cancelou a reunião.

Ocupando há meros sete dias a cadeira que já foi de Abraham Lincoln e Franklin Roosevelt, Trump parece disposto a usar a caneta presidencial para pôr em prática aquilo com que os americanos mais xenófobos, racistas e isolacionistas apenas sonhavam. Além de anunciar o muro na fronteira com o México e de retirar os Estados Unidos da Parceria Transpacífico, ele ameaçou retaliar empresas norte-americanas que transferirem suas linhas de montagem para o exterior, algo que nenhum presidente do país havia feito antes, por contrariar frontalmente a tradição de liberdade de mercado e de empreendimento nos Estados Unidos. 

Se Trump é capaz de algo tão violento contra a própria economia e as empresas do país que governa – semelhante ao que fizeram os regimes fascistas europeus dos anos 30, como lembrou em entrevista ao <CF735>Estado<CF> o Nobel de Economia Edmund Phelps –, pode-se esperar que ele tente desafiar toda a ordem econômica e comercial global. Caso Trump seja bem-sucedido, não haverá muro capaz de evitar que, em muito pouco tempo, os americanos – e com eles o resto do mundo – sofram os efeitos catastróficos de sua incrível irresponsabilidade.

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