O naufrágio político do senador

Nos últimos oito anos, pesadas denúncias derrubaram três presidentes do Senado. Os dois primeiros, Antonio Carlos Magalhães (ACM) e Jader Barbalho, renunciaram ao mandato para não serem cassados e ter suspensos os direitos políticos em decorrência de processos contra eles no Conselho de Ética, por quebra de decoro. O terceiro, Renan Calheiros, renunciou apenas à presidência no bojo de um acordo que lhe permitiu manter a cadeira de senador. Foram três episódios não menos deploráveis do que os fatos que lhes deram origem. ACM saiu em maio de 2001 (para voltar em 2003) porque se comprovou que ordenara a violação do painel eletrônico de votações da Casa. Barbalho saiu cinco meses depois (também para voltar, mas dessa vez à Câmara) porque se comprovou que mentira aos seus pares sobre o seu envolvimento em desvios de verbas no Banco do Estado do Pará e porque barrou um requerimento que pedia ao Banco Central os relatórios elaborados sobre o assunto. E Calheiros precisou entregar os anéis para conservar os dedos porque se comprovou que usara laranjas para comprar um grupo de comunicação em Alagoas - descoberta que se seguiu à notícia de que um lobista de empreiteira pagava as suas contas relacionadas com uma ligação extraconjugal.Cada história é uma história. Mas a trajetória da queda é a mesma nos três casos. Simplificando, passa por duas etapas. A primeira é o esgarçamento da roupagem de inocência que os acusados envergam tão logo brotam as denúncias que os expõem. À medida que elas se robustecem, as costuras do traje se desfazem e a ruptura da aparência de moralidade ostentada pelos visados conduz ao ato derradeiro: a vaporização das condições políticas para a sua permanência no comando da instituição. É quando soa oca até aos aliados da véspera a teoria conspiratória a que invariavelmente se agarram, fantasiados de vítimas, como à proverbial tábua de salvação dos náufragos. É nessa estação que se encontra o senador José Sarney, a cada dia mais perto de não conseguir completar o seu terceiro mandato na presidência da Casa, para o qual foi eleito em fevereiro último. Contra ele não pesa nada tão definido ou contundente como um painel, um banco, um lobista. Mas o apadrinhamento do capo da burocracia do Senado, o ex-diretor-geral Agaciel Maia, que, em 14 anos de vastos poderes e em conluio com sabe-se lá quantos políticos, produziu uma profusão de escândalos. Na era Agaciel, proliferaram nomeações de parentes e apaniguados de Sarney - enquanto, a julgar por seus protestos de ignorância, ele pisava nos astros, distraído. O seu obstinado distanciamento da enxurrada de atos administrativos secretos trazidos à tona nas últimas semanas levou de roldão as credenciais éticas que pudesse ter para "limpar as lixeiras da Casa", conforme as palavras que escolheu para dizer o que não queria fazer. Daí ao desfalque de seu patrimônio político foi um passo, na repetição do velho script. "Tem de sair", discursou na quinta-feira o correligionário Pedro Simon, do PMDB gaúcho, o primeiro da fila de colegas com a mesma exigência, na gritante ausência de qualquer líder sarneysista em plenário - e dele próprio. A gota d?água foi a revelação do Estado de que José Adriano Cordeiro Sarney, neto do presidente e filho de um deputado, é sócio de uma empresa que desde 2007 intermedeia empréstimos consignados para servidores do Senado, um negócio que movimenta cerca de R$ 144 milhões por ano na instituição. A resposta do clã foi invocar o respeitável currículo acadêmico do neto. Como se o ponto fosse esse e não o provável favorecimento na contratação da sua firma - ainda mais em um setor já sob investigação policial por corrupção e tráfico de influência, envolvendo o ex-diretor de Recursos Humanos da Casa João Carlos Zoghbi, vinculado a Agaciel Maia. Jogando a carta forjada do complô, Sarney tentou atribuir a divulgação do caso a "uma campanha midiática" para atingi-lo, presumivelmente em razão do seu "apoio ao presidente Lula e seu governo". O pedido de socorro não poderia ser mais eloquente. Mas Lula já baixou o tom de sua defesa do aliado. Não repete que ele não pode ser tratado "como se fosse uma pessoa comum". Agora se limita a dizer que Sarney "tem um compromisso de fazer apuração e ele diz que está fazendo". Para arrematar: "Só espero que haja apuração, só isso."

, O Estadao de S.Paulo

27 de junho de 2009 | 00h00

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