O naufrágio venezuelano

A Venezuela está à deriva. Comandado há quatro meses por um aprendiz de caudilho, que não sabe se governa ou se finge que é a reencarnação de Hugo Chávez, o país enfrenta uma crise tão ampla que começa no governo e termina, vejam só, nos estoques de papel higiênico. Símbolo tão cômico quanto trágico da irresponsável aventura estatista bolivariana, a escassez desse produto é o dado mais recente de uma conjuntura de tal modo dramática que revela toda a perniciosidade do tal "socialismo do século 21".

O Estado de S.Paulo

16 Maio 2013 | 02h09

O governo de Nicolás Maduro anunciou que "a revolução importará 50 milhões de rolos de papel higiênico", para, nas palavras do ministro do Comércio, Alejandro Fleming, acabar com a "campanha midiática" que está promovendo "compras nervosas desnecessárias" do produto. "Vamos saturar o mercado (de papel higiênico) para que nosso povo se tranquilize e compreenda que não se deve deixar manipular", disse Fleming. Para o ministro, "o presidente Chávez deixou uma economia fortalecida". No entanto, os milhares de venezuelanos que se acotovelam diariamente em filas para tentar comprar produtos inexistentes nas gôndolas começam a deixar de acreditar nessa mentira que já dura 14 anos.

Em quatro meses de governo - três como presidente postiço e um como presidente eleito numa votação denunciada como irregular pela oposição -, Maduro não apresentou nenhum plano de longo prazo para lidar com a crise, limitando-se a tentar apagar incêndios, muitas vezes usando gasolina. Maduro prometeu "medidas para impedir uma guerra econômica" contra o país e atribuiu essa guerra ao setor privado, que já está totalmente de joelhos.

No momento em que precisa da união das forças produtivas para tirar a Venezuela do buraco em que o chavismo a enfiou, o presidente afronta os empresários, acusando-os de tramar contra seu governo. Ainda confiando no capital carismático deixado por Chávez, que erode à luz do dia, Maduro parece apostar no caos e na intriga para manter-se no poder. É o caminho mais curto para o desastre, cujos sinais abundam.

A inflação dos quatro primeiros meses do ano aponta para um índice anualizado de quase 30%. Os produtos da cesta básica subiram 10% em abril e 46,7% na comparação com o mesmo mês de 2012. A desastrada política de estatização e de controle de preços travou a produção de alimentos e outros itens de primeira necessidade, tendo como resultado o desabastecimento crônico - cujo símbolo mais impactante foi o de uma fila para comprar farinha de milho em Barquisimeto, na qual os venezuelanos tiveram a senha de espera escrita no antebraço. Para tentar contornar o problema, o governo anunciou um aumento de 20% nos preços da carne, do frango e do leite, além de isenção fiscal a produtores agrícolas, o que é apenas um paliativo num cenário em que produzir continua sendo um ato heroico.

Não bastasse a escassez de produtos básicos, os venezuelanos enfrentam uma crescente espiral de violência. A taxa de homicídios chegou a 67 por 100 mil habitantes, a maior da América Latina, quatro vezes superior à do México, que enfrenta uma guerra do narcotráfico. Tomada por gangues, Caracas tornou-se uma das três cidades mais violentas do mundo - nas duas primeiras semanas de maio, foram 186 homicídios.

Não à toa, a insegurança foi um dos principais temas da campanha presidencial do opositor Henrique Capriles. Pressionado, Maduro ordenou que o Exército passasse a fazer o policiamento das ruas da capital e em duas cidades do Estado de Miranda - governado por Capriles. O plano, chamado de "Pátria Segura", prevê a mobilização de 3 mil soldados apenas em Caracas. Trata-se do vigésimo plano de segurança adotado pelo governo chavista, prova mais do que óbvia de sua contínua incompetência.

Com Maduro, porém, a combinação de incapacidade administrativa e falta de legitimidade, num cenário de escassez e violência, prenuncia um futuro sombrio.

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