O necessário recuo do IBGE

Ao rever sua decisão de suspender até 2015 a divulgação dos resultados de sua nova e mais abrangente pesquisa sobre o mercado de trabalho e assegurar, como era necessário, o cumprimento do calendário anteriormente estabelecido para os anúncios - o próximo será no dia 3 de junho -, a direção do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estanca o processo de corrosão de sua credibilidade iniciado há cerca de um mês. Se mantivesse a suspensão, a instituição, reconhecida internacionalmente pela qualidade de suas pesquisas, corria o risco de ser comparada à sua congênere argentina, que, por notória ingerência do governo da presidente Cristina Kirchner, tem produzido estatísticas que camuflam a inflação real e encobrem a deterioração da qualidade de vida da população.

O Estado de S.Paulo

09 Maio 2014 | 02h11

O IBGE não precisaria ter passado por uma de suas piores crises institucionais e de credibilidade se, no dia 10 de abril último, tivesse se limitado a anunciar, como estava programado há tempos, os primeiros resultados de seu novo estudo sobre emprego e desemprego no País, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua). São números referentes a 2013.

Era sabido que, por sua abrangência e por se basear em metodologia diferente, a Pnad Contínua poderia apresentar resultados não coincidentes com os da Pesquisa Mensal de Emprego (PME), a qual passará a substituir a partir de 2015. Só a diferença do alcance das duas pesquisas seria suficiente para justificar a expectativa de resultados diferentes: a PME, que vem sendo realizada desde 1980, abrange as seis principais regiões metropolitanas do País; já a Pnad Contínua alcança cerca de 3.500 municípios.

O que a Pnad Contínua mostrou é que, quando considerada uma área muito maior - e, portanto, mais representativa da situação real -, o desemprego pode ser maior do que o medido pela PME. Segundo a nova pesquisa, o desemprego médio no País em 2013 foi de 7,1%, menor do que em 2012 (7,4%), mas bem superior aos resultados mais recentes da PME, que têm ficado entre 5% e 6%. Os dados trimestrais indicam que o resultado da Pnad Contínua referente aos três primeiros meses de 2014 também deve ser maior do que o da PME, fato que deve se manter nos trimestres seguintes.

Surpreendentemente, porém, logo após a divulgação dos resultados da Pnad Contínua de 2013, a direção do IBGE anunciou a suspensão da divulgação dos resultados seguintes. A alegação foi a de que, apesar de ter sido demoradamente discutida e testada, a metodologia da pesquisa ainda não oferecia a segurança técnica necessária para a aferição de alguns indicadores.

A qualidade de um desses indicadores, a renda per capita por Estados e municípios, não foi questionada por estatísticos profissionais, e sim - não por acaso - por dois senadores da base governista. A ministra do Planejamento, Miriam Belchior - a quem a direção do IBGE responde funcionalmente -, disse que um erro na pesquisa poderia levar o caso para a Justiça, pois a reparticipação dos recursos dos Fundos de Participação dos Estados e dos Municípios será baseada nela. Era notória a pressão política sobre o órgão.

Não deve ter sido mera coincidência que a pressão para a suspensão da divulgação dos resultados da Pnad Contínua - piores dos que os da PME - tenha ocorrido no momento em que o governo vinha utilizando o baixo desemprego aferido pela PME como uma das bandeiras da campanha de reeleição da presidente Dilma Rousseff.

Os claros sinais de ingerência política na instituição causaram a revolta do corpo técnico. Duas diretoras pediram demissão e os coordenadores das principais pesquisas colocaram seus cargos à disposição da diretoria, ameaçando deixá-los caso a decisão de suspender a divulgação da Pnad Contínua não fosse revista.

Com a preservação do calendário da divulgação, agora decidida por unanimidade pelo Conselho Diretor do IBGE, evita-se que a situação piore. Mas não há garantia de que o governo do PT não voltará a tentar intervir no órgão, quando surgir outra oportunidade.

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