O negócio é ganhar tempo

Por algo como 38 segundos em cada bloco de 25 minutos do horário de propaganda eleitoral dito gratuito que começa em 19 de agosto e vai até 2 de outubro - exceto, misericordiosamente, aos domingos -, a presidente Dilma Rousseff nomeou o tesoureiro do PTB, Luiz Rondon Teixeira de Magalhães Filho, para uma das vice-presidências da Caixa Econômica Federal.

O Estado de S.Paulo

07 Maio 2014 | 02h10

Com isso, o partido conserva a sua cota na administração indireta, apesar da saída do presidente da legenda, Benito Gama, de outra vice-presidência, só que no Banco do Brasil. O veterano político baiano precisou deixar o cargo para concorrer a uma vaga na Câmara dos Deputados. A sigla não tem ministros.

No seu primeiro mandato, Lula entregou os Correios à patota do então presidente petebista Roberto Jefferson. Para se vingar do vídeo em que um ex-funcionário da autarquia aparece recebendo propina de interessado numa concorrência, a quem diz ter o respaldo do chefe, Jefferson se voltou contra o ministro da Casa Civil, José Dirceu, e denunciou o esquema do mensalão.

Ainda que nada pareça pesar contra o novo membro da cúpula da quarta maior instituição financeira do País e que nada se deva inferir, a priori, do fato de ser ele o responsável pelas finanças de sua agremiação, o retrospecto sugere que Dilma poderia ter sido mais prudente nesse episódio de fatiamento do setor público para fins eleitorais. Diria um cínico, lembrando o seu prazeroso passeio noturno por Brasília na garupa de uma Harley-Davidson, que ela gosta de viver perigosamente.

O PTB é um partido que já conheceu dias melhores: a sua bancada na Câmara, com 17 deputados, é a menor desde 1998 (quando a sigla havia conseguido eleger 31 representantes). Nos Estados Unidos do voto facultativo, ao sair à cata de cidadãos que relutam a ir às urnas, achando que o triunfo de seu candidato está garantido, os cabos eleitorais invocam o mantra "cada voto conta". A versão local é outra.

Nas eleições para mandatários executivos, o que conta é cada fração de tempo de que eles possam se apropriar no horário de propaganda. A parte variável desse período depende do tamanho das bancadas federais dos partidos das diferentes coligações. Foi de olho nas possibilidades que o sistema pode proporcionar a quem tenha favores a distribuir que o então presidente Lula montou em 2010 a mais enxundiosa aliança da história eleitoral do País, com 10 siglas.

Nem o PTB do ex-aliado Jefferson nem o PP de Paulo Maluf participaram dessa extravagância. Mas aderiram ao governo, ajudando-o a ter o apoio nominal de 14 dos 19 partidos com assento na Câmara. E, quaisquer que sejam os arranjos a que se entregarem nos Estados, na sucessão presidencial serão dilmistas desde criancinha. O PTB, com os seus já citados 38 segundos, aproximadamente. O PP, com 1min14s.

A soma dos respectivos tempos praticamente compensa o 1min59s perdido para o candidato do PSB, Eduardo Campos. A meta da presidente é esparramar a sua candidatura - com a indispensável participação de Lula, o legendário, como deu de chamá-lo - pela metade de cada sessão do horário eleitoral, ou durante 12min30s (com ligeiras variações para menos ou mais). Será uma verdadeira operação-abafa.

A coligação de três partidos (PSDB, DEM e Solidariedade) em torno da candidatura do senador tucano Aécio Neves terá 4min11s para persuadir parcela suficiente da massa de eleitores indecisos - que vão fazendo as suas escolhas ao longo da temporada de propaganda - de que ele é quem encarna o desejo de mudança, compartilhado, segundo as pesquisas, por quase 3/5 do eleitorado.

Doze minutos e meio, duas vezes por dia, três dias por semana, é uma fartura, mas também um risco. João Santana, o influente marqueteiro do Planalto - considerado o segundo principal interlocutor de Dilma, depois de Lula, naturalmente -, tem diante de si uma tarefa mais espinhosa do que a de 2010.

Naquela campanha, Dilma era a canhestra coadjuvante do astro fenomenal que a patrocinava. Na próxima, com tempo que não acabará mais - e relatos às pencas das supostas proezas deste governo -, ela é que terá de ocupar a ribalta, com o carisma de todos conhecido.

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