O Nobel Deaton, o dinheiro e a felicidade

O Nobel de Economia deste ano foi outorgado a Angus Deaton, um economista escocês ligado à Universidade de Princeton (EUA). Interessado no tema finanças pessoais, em 2013 li artigo que escreveu em 2010 com o psicólogo Daniel Kahneman, ganhador do mesmo Nobel em 2002. Vale enfatizar: este último, um psicólogo que ganhou o Nobel de Economia, o que demonstra o alcance do seu talento.

ROBERTO MACEDO, O Estado de S.Paulo

15 Outubro 2015 | 02h54

Traduzido do inglês o título do artigo é Renda alta melhora a avaliação da vida, mas não o bem-estar emocional. Pode ser consultado em http://www.pnas.org/content/107/38/16489.full, e foi mencionado no comunicado com que a instituição que outorga o Nobel justificou a escolha de Deaton.

Kahneman é hoje um ícone da área de finanças comportamentais, que se desenvolveu fortemente nas duas últimas décadas em contraposição ao enfoque tradicional, que adota como premissa a racionalidade do ser humano. Ele demonstrou que o ser humano tem racionalidade limitada por desvios comportamentais que podem comprometer a qualidade de suas decisões financeiras.

Como o referido artigo tem agora a assinatura de dois premiados com o Nobel, acredito que merecidamente venha a receber atenção ainda maior. Presumo que na pesquisa que levou ao artigo Kahneman tenha esclarecido aspectos da felicidade e Deaton, entrado com sua grande habilidade de lidar com pesquisas domiciliares e grandes bases de dados, inclusive em países em desenvolvimento, como na Índia.

Sobre a relação entre dinheiro e felicidade, certa vez tomei conhecimento de uma frase de São Tomás de Aquino, que em linguagem mais atual afirma ser necessário um mínimo de conforto material para uma vida virtuosa. Passei a chamar esse mínimo de Aquiniano.

No artigo citado, parte-se da visão de que a felicidade se desdobra em dois aspectos. O primeiro vem da avaliação que a pessoa faz ao refletir sobre suas condições de vida. O segundo diz respeito ao bem-estar emocional que ela sente no seu dia a dia, conforme avaliado pela frequência e intensidade de experiências de alegria, estresse, tristeza, raiva e afeições que tornam o viver agradável ou desagradável. Definidos esses conceitos, na análise empírica a pesquisa voltou-se, em síntese, para perguntar se o dinheiro “comprava” felicidade e, separadamente, para esses dois aspectos. E o trabalho de campo envolveu 450 mil respondentes nos EUA, uma amostra de grande amplitude.

Deaton e Kahneman concluíram que a renda é positivamente correlacionada com a avaliação das condições de vida. Ou seja, nesse primeiro aspecto da felicidade o dinheiro é muito importante. A educação também se revelou positivamente correlacionada com a avaliação dessas condições, o que também confirma a sua importância. Quanto ao bem-estar emocional, vale repetir, o segundo componente da felicidade, ele também cresce com a renda, mas sem avanços adicionais a partir de US$ 75 mil por ano, valendo lembrar que os americanos costumam avaliar sua renda em bases anuais. A uma taxa de câmbio arredondada para R$ 4 por dólar, esse valor equivale hoje a R$ 25 mil por mês, mas nas condições atuais entendo que essa taxa subvaloriza o real. De qualquer forma, dada a pobreza ainda marcante no Brasil, a grande maioria da população se sentiria feliz quanto às suas condições de vida se ganhasse, digamos, R$ 10 mil por mês. Mas esse é assunto por pesquisar.

Tendo vivido nos EUA e acompanhado o que lá se passa desde então, minha percepção é de que o valor encontrado por esses pesquisadores é suficiente para a pessoa manter-se com o cônjuge e dois filhos, colocá-los em boas escolas até o ensino médio, adquirir com financiamento de longo prazo uma casa em boas condições. E ter dois carros, que lá são muito mais baratos do que aqui, no valor e no combustível, mais atividades de lazer, entretenimento incluído. Mas não chega a ser um orçamento folgado, pois é preciso poupar dinheiro, como para se aposentar com um rendimento superior ao assegurado pela previdência social do país, custear um bom plano de saúde e levar os filhos ao ensino superior, em muitos casos não gratuito e frequentemente realizado noutra cidade, o que exige gastos adicionais.

A conclusão da pesquisa, portanto, é que uma renda mais alta “compra” a felicidade no sentido de satisfação com a vida até um valor em torno do referido limite, mas não a felicidade no plano emocional antes ou depois dele. Com renda muito baixa a pessoa tende a ser infeliz nos dois aspectos. Essa separação conceitual da felicidade me parece adequada e os resultados da pesquisa têm alcance mais geral, exceto quanto ao valor citado, como já disse, ainda por pesquisar no Brasil.

Essa pesquisa reafirmou minha percepção de que se a pessoa não tem o mínimo Aquiniano, ou, pior ainda, está muito longe disso, viver nessas condições é muito difícil e traz danos ao bem-estar emocional. Quanto ao que mais determina a felicidade, também entendo que a satisfação consigo mesmo e o reconhecimento no meio social é um importante ingrediente nesse processo.

Ligada a essa visão dual da felicidade, outra percepção que me ocorre é que as pessoas com ocupações que trazem grande reconhecimento social, como artistas e esportistas, correm o risco de deixar em plano secundário a acumulação dos meios necessários à manutenção de seu padrão de vida depois que perdem esse status em estágios precoces ou intermediários de suas carreiras. Ou seja, a felicidade do segundo tipo pode ofuscar a preocupação com a do primeiro, mas em algum momento essa preocupação pode voltar a predominar. Às vezes já em condições em que o ajuste não é possível, dado o avanço da idade combinado com a queda da renda e a ausência ou fragilidade de recursos acumulados. O que reforça a necessidade de poupar para essa fase da vida.

ROBERTO MACEDO É ECONOMISTA (UFMG, USP E HARVARD), É CONSULTOR ECONÔMICO E DE ENSINO SUPERIOR

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