O nome da crise

A revista Le Nouvel Observateur da segunda semana de janeiro deste ano publicou o artigo Les milliards de Harvard (Os bilhões da Harvard), que revela fatos importantes para as universidades brasileiras.O fundo (endowment) que administra as doações feitas a Harvard possuía então US$ 30 bilhões; mais da metade dos 425 maiores doadores são ex-alunos e filhos de ex-alunos dessa instituição que possui 45 Prêmios Nobel entre seus ex-estudantes, ex-professores e atuais professores. A uns quatro quilômetros da Harvard está o Massachusetts Institute of Technology (MIT), onde tal relação é de 62 Prêmios Nobel. O endowment da Harvard reúne 10.800 fundos e o primeiro deles surgiu em 1649, 13 anos após a sua criação; só a Harvard Business School recebeu em 2006 cerca de US$ 600 milhões em doações. Os fundos das dez universidades mais ricas dos EUA ascendem a US$ 180 bilhões, mais de 10% do produto interno bruto (PIB) da França, observou a revista.Em março de 1997 o Bank Boston publicou o relatório MIT - the Impact of Innovation, sobre resultados das atividades do MIT: naquele ano, havia 4 mil companhias pertencentes a oriundos do MIT, que empregavam mais de 1 milhão de pessoas e geravam lucros anuais superiores a US$ 232 bilhões; entre elas estão a Hewlett Packard, Intel, Raytheon, National Semiconductor, Texas Instrument e McDonald Douglas; 1.065 empresas do Estado onde se encontra o MIT empregavam 353 mil pessoas e geravam lucros anuais de US$ 53 bilhões.Há alguns meses os físicos M. Tegmark e J. A. Wheeler revelaram que, no ano 2000, cerca de 30% do PIB americano (isso corresponde a umas seis vezes o PIB brasileiro) decorreu de invenções que se fundamentam na teoria dos quanta, o que comprova as palavras do Prêmio Nobel S. Weinberg em seu livro Facing up, Science and its Cultural Adversaries (Harvard University Press. 2001): ''''Estou convencido de que sem as nossas grandes universidades de pesquisa teríamos de nos manter nos EUA plantando soja e mostrando o Grand Canyon a turistas alemães e japoneses.''''Entre as instituições que classificam universidades, o Instituto de Educação Superior da Universidade Shanghai Jiao Tong, na China, usa informações sobre a qualidade aferida pelo número de alunos, ex-alunos e professores que receberam a Fields Medal, o Nobel e prêmios semelhantes; os artigos publicados na Science e na Nature, por exemplo, e os listados no Science Citation Index e no Social Science Citation Index. Ele as classificou até a centésima posição e, a partir daí, as posicionou entre limites: no rol das 30 melhores há 22 norte-americanas, 4 inglesas, 2 japonesas, 1 canadense e 1 suíça - a USP ficou entre a 153ª e a 200ª e a Unicamp, entre a 300ª e a 400ª.Dom Pedro II governou o Brasil por 49 anos, quando éramos um dos países mais importantes do mundo e o imperador era exemplo de honradez, sabedoria e cultura. Foi a nós que os EUA recorreram para ajudá-los a vencer a guerra contra a Espanha e para isso lhes vendemos três cruzadores, rebatizados com os nomes USS Olympia, USS Maine e USS Oregon. Quanto a dom Pedro II, morreu pobre (''''o tempora, o mores''''...), num quarto de um modesto hotel em Paris, e foi o governo da França que lhe prestou as honras de chefe de Estado, sob protestos do embaixador brasileiro em Paris. Segundo os jornais da época, ''''havia tanta gente nos funerais do imperador quanto nos de Victor Hugo''''. Por que o Brasil é tão atrasado em relação aos EUA e por que, desde o fim do Império, eles se desenvolveram tanto e nós somos atrasados? Muitos atribuem isso à descoberta do carvão e do petróleo naquele país, mas o sensato é concordar com Weinberg e dizer que isso se deve à falência da educação brasileira, que é hoje uma das piores do mundo. Apesar disso, nada abala o poder público.Na aula inaugural dos cursos da Faculdade Nacional de Direito, proferida em 1955, sobre A Educação Jurídica e a Crise Brasileira, San Tiago Dantas alertou: ''''A sociedade brasileira de hoje oferece um exemplo perfeito da crise determinada pela perda de eficácia ou poder criador da classe dirigente. Os que se acham no comando da sociedade perderam gradualmente o poder de encontrar soluções para os problemas, não só para os problemas criados pelo meio físico e pelas exigências da civilização material, como para os problemas de autogoverno da sociedade, inclusive o da transmissão de seu acervo cultural através da educação. A incapacidade da classe dirigente para criar, assimilar, executar e adaptar as técnicas necessárias ao controle do meio físico e do meio social já permitiu que se iniciasse entre nós, sobretudo nos centros urbanos e nas regiões mais adiantadas, onde a pressão dos problemas irresolvidos se faz sentir com maior intensidade, o processo de secessão da classe dirigida... Quando fracassa a classe dirigente na sua função específica de resolver problemas e de manter em uso as técnicas de controle da sociedade e da natureza, cabe um papel histórico às universidades e às escolas, pela capacidade que deve ter toda corporação estudiosa de se desprender, pelo raciocínio, dos processos sociais de que participa, e medir a sua extensão, verificar o seu sentido e apontar os meios de retificá-los.''''No Brasil, reitorias são invadidas, há greves sem fim e ameaças de invasões em larga escala em agosto; o patrimônio público é dilapidado, alunos agem como vândalos e agridem professores, o ensino fundamental faliu, seus professores são mal pagos e faltam bibliotecas e laboratórios. Leis e decretos surgem em catadupas e nada alteram. Qual a influência de cada universidade pública na economia brasileira? Resta-nos vender soja e mostrar a Amazônia aos estrangeiros?

José C. Azevedo, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2001 | 00h00

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