O nome do boi

Quando ainda não havia escolhido a arma a seu ver mais potente para contra-atacar a denúncia do mensalão - a alegação de que o escândalo foi uma farsa montada pela mídia e a oposição, em conluio para removê-lo do poder -, o então presidente Lula vacilou. Ora se declarou traído, pedindo perdão ao povo brasileiro, ora tentou encobrir a compra de votos de deputados para apoiar o seu governo com a falácia de que tudo se resumiu a um crime eleitoral - o uso de caixa 2 - do qual, evidentemente, não tinha conhecimento.

O Estado de S.Paulo

04 Julho 2012 | 03h09

Em julho de 2005, numa entrevista gravada em Paris, que o Fantástico levaria ao ar, disse textualmente: "O que o PT fez do ponto de vista eleitoral é o que é feito no Brasil sistematicamente. Eu acho que as pessoas não pensaram direito no que estavam fazendo. (…) E não é por causa do erro de um dirigente ou de outro que você pode dizer que o PT está envolvido em corrupção". Passados sete anos, e a um mês do julgamento no STF dos 36 mensaleiros para os quais o Ministério Público pede cadeia, não resta dúvida de que as palavras de Lula eram o embrião da estratégia de defesa dos maiorais do partido.

Em primeiro lugar, ninguém corrompeu ninguém no Congresso, muito menos - onde já se viu! - com verbas publicitárias do governo que, depois de percorrer tortuosos caminhos, ingressavam nos cofres petistas, de onde migrariam para remunerar parlamentares por sua lealdade ao Planalto. Tudo se resumiu a "pessoas" ou a "um dirigente ou outro" que não pensaram direito, esqueceram-se da ética petista e imitaram os demais partidos ao usar dinheiro à margem da contabilidade oficial das campanhas para ganhar eleições - um ilícito comparativamente menor e que, por isso mesmo, prescreve com relativa rapidez. Não é o caso dos crimes de corrupção e formação de quadrilha.

Faltava apenas dar o nome aos bois de piranha que assumiriam plena responsabilidade pelo malfeito para que a companheirada atravessasse incólume as águas turvas em que se enfiou até o pescoço. Já não falta - e o sacrificado será um só, com o seu aparente assentimento. Ele se chama Delúbio Soares de Castro, o professor de matemática que trocou o magistério pela militância no PT, a cujo alto comando chegou nos ombros de Lula, na estratégica função de secretário nacional de Finanças. Nessa condição, cunhou uma expressão que se tornaria famosa para se opor à ideia de a sigla divulgar na internet a sua movimentação financeira em tempos de eleição: "Transparência assim já é burrice".

Delúbio fez o que fez - caixa 2 para financiar políticos aliados nas eleições de 2002 e 2004 - rigorosamente por conta própria, e tinha independência para tal, é a linha justa levada aos ministros do STF. Ele não só não pedia autorização a quem quer que fosse nem tampouco agia sob influência alheia, como ainda mantinha na ignorância de seus negócios o ministro da Casa Civil e ex-presidente do partido, José Dirceu - apontado na denúncia do então procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, como o chefe do "núcleo central da quadrilha" do mensalão. Os outros eram o próprio Delúbio, o secretário-geral Sílvio Pereira e o presidente da agremiação, José Genoino.

O fato de a sua assinatura figurar em contratos de empréstimos tomados pelo partido, por iniciativa de Delúbio, nos bancos Rural e BMG não o tornaria cúmplice de coisa alguma: assinou por burocrático dever de ofício. Dizem os patronos de José Dirceu, os criminalistas José Luís Oliveira Lima e Rodrigo Dall'Acqua, para isentar o seu cliente: "Restou provado que o presidente do PT, de fato e de direito, era mesmo o corréu José Genoino, uma pessoa de total autonomia de mando". Diz Luiz Fernando Pacheco, patrono de Genoino: "O PT entrou numa crise financeira, o diretório nacional delegou ao Delúbio a resolução do problema, como tesoureiro. Quem tem de responder por isso é o Delúbio".

Se o estratagema der certo e o STF conferir a Dirceu o atestado de inocência a que ele diz que faz jus, o partido assumirá com Delúbio uma dívida impagável - com ou sem aspas.

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