O novo alvo do 'grande eleitor'

Quando começou a montar o tabuleiro eleitoral de 2010, o presidente Lula não teve nenhum escrúpulo de consciência para pisar no pescoço dos companheiros cujas ambições no plano estadual poderiam atrapalhar o seu objetivo absolutamente prioritário de fazer da ainda ministra Dilma Rousseff a sua sucessora. Com olhos fixos na sua meta, decidiu que o PT não teria candidatos próprios em Estados como Minas Gerais e Maranhão, para recompensar o PMDB - e, em particular, o seu principal aliado no coronelato político nacional, José Sarney - pelo apoio a Dilma.

, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2010 | 00h00

Lula, o arquirrealista, também contrariou a si mesmo na escolha do companheiro de chapa da candidata. Se dependesse dele, seria o neopeemedebista Henrique Meirelles. Mas, como não dependia, submeteu-se à preferência da cúpula do partido pelo deputado Michel Temer, o número um da agremiação. Ainda não está clara a contribuição do PMDB para alçar Dilma à liderança nas pesquisas, com fortes chances de se eleger no primeiro turno. Claro é que ela chegou lá nos ombros da popularidade de Lula, combinada com a expectativa de aprofundamento das ações sociais do governo.

O êxito inconteste da transposição de votos para Dilma e a previsão nos meios lulistas de que ela triunfará em 3 de outubro por maioria arrasadora levam agora o "grande eleitor" a fazer como que o caminho inverso da pré-campanha, para federalizar a disputa pelo governo de Estados-chave como São Paulo e Minas. No primeiro, o tucano Geraldo Alckmin supera o petista Aloizio Mercadante nas pesquisas por 54% a 16%. No segundo, a vantagem do peemedebista (e ex-ministro de Lula) Hélio Costa sobre Antonio Anastasia, do PSDB de Aécio Neves, acaba de cair de 18 para 11 pontos.

No primeiro comício de Mercadante do qual participou, em Osasco, na última sexta-feira, ele repreendeu publicamente a companheirada por dizer que o melhor a que o candidato pode aspirar é chegar ao segundo turno. Lula não duvida disso, mas se irrita com o ar de resignação dos petistas diante da supremacia do tucano. Ele cobrou da campanha a criação de "fatos políticos" para, ao menos, reduzir o favoritismo de Alckmin. Para dar o exemplo, disse que os pedágios das estradas paulistas são "um roubo".

Mas o fato político capaz de fazer diferença é ele usar em favor de Mercadante os poderes mágicos que puseram Dilma a levitar. Com isso, Lula espera igualmente virar o jogo nacional em São Paulo, onde o ex-governador José Serra bate a ex-ministra por 7 pontos. Para ele nenhum sonho político se compara ao de eleger a sua criatura política e ainda exterminar a espécie tucana no Estado onde PT e PSDB mais se guerreiam desde que vieram ao mundo. Não será surpresa se nas próximas semanas Lula se materializar em São Paulo um dia sim, o outro também.

Anteontem ele deu uma amostra da rica agenda paulista que terá à disposição. Como nos velhos bons tempos, amanheceu às portas da Mercedes-Benz, em São Bernardo, com Dilma e Mercadante a tiracolo - mas a peãozada, como gosta de falar, preferiu mesmo achegar-se à sua volta. Na linha do que vem afirmando de uns tempos para cá sobre a sua atuação fora do governo, como uma espécie de "presidente fantasma", prometeu que ajudará os líderes sindicais a pressionar a provável sucessora quando precisarem. Se ela sentiu desconforto, não o demonstrou.

Horas depois, o presidente entrou num estrelado hotel da zona sul paulistana para ser paparicado pelo capital - no caso, os empresários da construção pesada, reunidos na Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib). A jornada terminou onde começou, em São Bernardo. Ali, Lula inaugurou a TVT (TV do Trabalhador), do sindicato dos metalúrgicos, primeira emissora outorgada a uma entidade do gênero. A iniciativa, discursou o presidente, visa a evitar que os trabalhadores "continuem impedidos de exercer a liberdade de expressão". Mas quem roubou a noite foi o ministro da Comunicação Social, Franklin Martins, com uma diatribe contra os "aquários", os centros de decisão editorial dos órgãos de mídia, que estariam com os dias contados. "Uma revolução", ameaçou, "está apenas começando."

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