O novo desafio do crime

Bandidos vêm semeando o pânico e aterrorizando grande parte das pequenas cidades do interior paulista

O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2018 | 03h00

Os ataques a bancos e caixas eletrônicos cresceram nos últimos três anos, principalmente em cidades do interior, e já são um dos pontos mais preocupantes da segurança pública em São Paulo, como mostra reportagem do Estado. E as autoridades ainda não encontraram uma forma de responder ao desafio da mudança de tática dos bandidos, que se aproveitam do fato de os efetivos policiais das pequenas cidades não serem suficientes para enfrentar essa nova realidade.

Os números e o impacto desses ataques na população pacata daquelas cidades dão ideia do tamanho do problema com que o governo está às voltas. De 2015 para cá, eles não só continuaram muito frequentes na capital, com 438 ocorrências, como se espalharam pelo interior, atingindo 336 cidades, metade dos municípios do Estado. Em 2016 e 2017, embora elevado, o número de ataques ficou abaixo do de 2015. Mas voltou a crescer em 2018: nos dois primeiros meses, o aumento foi de 10,5% em relação a igual período de 2017, chegando a 84. Além disso, o uso de explosivos ficou mais frequente.

As cidades mais atingidas foram as situadas nas proximidades de Campinas, São José dos Campos, Sorocaba e Ribeirão Preto. Escolhidas a dedo entre as que possuem menor número de policiais, nelas a maneira de atuar dos bandidos é sempre a mesma: em geral em grupo de dez, eles chegam em caminhonetes exibindo armas longas, numa encenação destinada a amedrontar a população. Usam dinamite para explodir os terminais eletrônicos e os caixas das agências e agem com rapidez para fugir antes da chegada de reforços.

Em algumas cidades, a ação se repete várias vezes. É o caso da pequena Tapiraí, com 8 mil habitantes, citada como exemplo pela reportagem, que detém até agora o recorde de seis ataques em cinco anos, o último dos quais em pleno feriado da Sexta-Feira Santa. O destacamento da PM ali tem em geral apenas dois agentes de plantão na cidade. Por precaução, os bandidos ainda promovem, como fizeram nos ataques em Tapiraí, uma ação na zona rural para ocupar os outros agentes do efetivo da PM, segundo o sargento José Aparecido Vieira: “Com isso, eles tiram nossa atenção (do que se passa na cidade) e então a quadrilha age. Eles têm uma ação planejada”.

Dessa maneira, os bandidos vêm semeando o pânico e aterrorizando grande parte das pequenas cidades do interior paulista. A quantidade de dinheiro nessas agências não é grande, se comparada com a das grandes cidades, mas, como as atingidas são muitas e a operação relativamente barata, essa modalidade de ação criminosa rende muito. Ela já ocorre em outros Estados, nos quais, tal como em São Paulo, não atingem apenas cidades menores. Em 11 de abril passado, foi a vez de Passos, no sul de Minas, cidade com mais de 100 mil habitantes, que por isso mereceu um ataque de maior envergadura – com queima de ônibus para dificultar a ação da polícia – e mais sofisticado, com a utilização de drones. Foram explodidos terminais eletrônicos e caixas de duas agências bancárias.

A reação da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo ao quadro traçado pela reportagem não é animadora. Em nota, ela alega que caiu o número de ataques em 2017, sem considerar o conjunto dos três últimos anos e a disseminação dos ataques pelo interior. E aponta a prisão em 2017 de 62 criminosos envolvidos nos ataques. O que não impediu que eles aumentassem nos primeiros meses de 2018. Isso parece indicar que as autoridades, ou não tomaram consciência da nova situação, ou ainda não sabem como enfrentá-la.

São Paulo fez inegáveis progressos no combate ao crime nos últimos anos, mas essa é uma batalha contínua. Houve uma grande redução do número de homicídios, hoje de 8 por 100 mil habitantes, de longe a taxa mais baixa do Brasil. Mas, além de a maior parte desses crimes ser de natureza passional e acertos de contas individuais, sem relação direta com segurança pública, falta o mais importante, que é responder ao desafio do crime organizado e das novas formas de ação dos bandidos, como a dos ataques às pequenas cidades.

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