O novo-rico e o FMI

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, aproveitou a visita da diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional, Christine Lagarde, para mais um comentário digno de um novo-rico emergente: "É uma satisfação que desta vez o FMI não tenha vindo para dar dinheiro ao Brasil, mas para pedir dinheiro". Ele fez o comentário no fim de uma entrevista coletiva, em Brasília, ao lado da visitante. Ela já estava sem o fone usado para ouvir a tradução simultânea e talvez não tenha notado as palavras de seu anfitrião. Se notou, preferiu silenciar.

O Estado de S.Paulo

03 Dezembro 2011 | 03h05

A possível participação brasileira no reforço de caixa do FMI foi discutida nas conversas da diretora-gerente com o ministro da Fazenda, o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, e a presidente Dilma Rousseff. Não houve notícia oficial sobre o assunto, mas o governo, segundo fontes qualificadas, estuda uma contribuição na faixa de US$ 10 bilhões a US$ 15 bilhões.

O Brasil se comprometeu recentemente com o esquema de captação de recursos conhecido como New Arrangements to Borrow (NAB), criado depois da crise mexicana de 1995. Por esse esquema, o FMI fica autorizado, em situações de emergência, a sacar determinados valores dos países contribuintes - um acerto parecido com o dos cheques especiais. Formado inicialmente por poucos países, na maior parte desenvolvidos, o grupo foi ampliado a partir de negociações iniciadas em 2009 e hoje inclui 40 participantes. Só uma vez o esquema foi acionado para socorrer um país - o Brasil, em 1998.

Participar de arranjos desse tipo é geralmente um sinal de maturidade financeira. Países capazes de assumir responsabilidades e papéis importantes na vida internacional normalmente o fazem sem bravatas e sem exibicionismo. Bem antes do Brasil, o Chile integrou o NAB, por meio de seu banco central, e seu governo jamais alardeou isso. As autoridades da China e da Rússia, habituadas há muito mais tempo a posições importantes - e com assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas -, são em geral discretas e não costumam chamar a atenção para a sua importância.

Além disso, russos e chineses normalmente agem e negociam invocando em primeiro lugar seus interesses nacionais. Muito raramente falam em nome dos Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) e é ainda menos frequente aparecerem como porta-bandeiras dos emergentes ou das economias em desenvolvimento. Autoridades chinesas, indianas e russas não costumam aparecer no noticiário condicionando esta ou aquela ação a consultas prévias a seus parceiros de acrônimo - porque os Bric são, antes de tudo, um acrônimo e muito raramente agem como bloco.

O ministro Guido Mantega, no entanto, costuma agir como se os quatro países - ou cinco, se a agregação da África do Sul for levada a sério - tivessem muitos interesses comuns e formassem uma frente unida nos grandes foros internacionais. Por isso, segundo o ministro, a contribuição brasileira só será definida depois de uma confabulação do grupo.

Com isso, o governo brasileiro mostra-se incapaz de resolver por si se o País é suficientemente importante para assumir um papel de mais peso no combate a uma das maiores crises de todos os tempos. Mostra-se incapaz, igualmente, de expor suas condições para participar.

Mas os membros do Bric têm obviamente poucos objetivos comuns, como comprova - entre muitos outros fatos - a insistência chinesa em manter sua moeda subvalorizada. Além disso, o governo chinês aliou-se ao americano para impedir a inclusão de um debate sobre o câmbio na próxima reunião ministerial da Organização Mundial do Comércio. O Brasil havia proposto o tema.

Lagarde conhece as enormes diferenças entre os interesses dos Bric, mas não comenta a posição brasileira. Prefere elogiar a política do governo e apontar o País como um dos mais preparados para enfrentar a crise, por suas condições fiscais, pela solidez de seu sistema financeiro e pelo volume de reservas. Também não faz bravatas. O objetivo do FMI, disse ela em São Paulo, é obter resultados e não visibilidade. Por isso, explicou, boa parte de seu trabalho é feita nos bastidores. Isso inclui as negociações com os europeus.

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