O olho da nova classe média

As planilhas de viabilidade eleitoral, organizadas para balizar o planejamento das campanhas, costumam levar em conta pontos fortes e pontos fracos dos candidatos, características das classes sociais, influência das estruturas de poder nas regiões, propostas e promessas, arrematando esse acervo com doses adequadas de emoção e razão.

Gaudêncio Torquato, O Estado de S.Paulo

25 Abril 2010 | 00h00

Os proponentes, cada um com seu estilo, se esforçarão para impactar os agrupamentos eleitorais, por classe e região, maximizando habilidades comunicativas e minimizando deficiências. Trabalharão com a ideia de aproximar identidade (personalidade, escopo) à imagem (projeção da identidade). Nem sempre serão eficientes na tarefa, ou porque, ao encapsularem as orientações dos assessores, não conseguirão transmiti-las de modo natural, parecendo ventríloquos, ou porque rechaçarão conselhos e acabarão dando com os burros n"água.

Comparado a outros pleitos, o deste ano ganhará esquadrinhamento apurado. A razão é que o ciclo Lula, perto do fim, incitará o eleitorado a examinar de perto o desempenho dos postulantes, avaliando potenciais, comparando ideias e medindo a proposta que melhor se encaixa na aposta do futuro.

O caleidoscópio eleitoral contará com atentos observadores. O principal olheiro será o eleitor de classe média, o qual, historicamente, tem tido visão aguda sobre o desenrolar das disputas. Nos próximos meses, a luneta será requisitada por um contingente recém-chegado que se incrustou no meio da pirâmide social por conta do braço distributivista do governo Lula. Esse numeroso exército subiu a ladeira, saindo da classe D, iniciando uma trajetória carregada de símbolos. Trata-se da nova classe média brasileira, que ganhou status de maior aglomerado nacional. Portanto, o pleito ocorrerá sob o signo da mudança do perfil econômico e geográfico do País.

A alteração na fisionomia social implica reavaliação do comportamento de todos os segmentos. Como se sabe, a classe média é quem mais sofre com as obrigações impostas pelos governos, como a alta carga tributária, e ainda com a má qualidade dos serviços públicos. Também é a mais atenta às promessas não cumpridas por nossa democracia representativa. Por isso, pode ser chamada de termômetro mais sensível da vida social. Por estar no meio, onde se cruzam as pressões de baixo e os interesses de cima.

Classe média insatisfeita sinaliza perigo para qualquer governo. E como ela se apresenta nesse instante em que os tambores da guerra começam a rufar? Os dados indicam que ela atravessa uma situação, se não de todo confortável, pelo menos não tão incômoda. Hoje, ela é responsável por 52% da população economicamente ativa, juntando 92,8 milhões de pessoas que ganham um salário entre R$ 1.115 e R$ 4.807 e detêm 46% da renda nacional. A pergunta que inquieta o entorno dos candidatos é esta: Qual seu peso no processo eleitoral? É grande. Outra questão: Por onde trilhará este ano? Vejamos as pistas.

O petismo dará vazão à recorrência de que, na era Lula, cerca de 30 milhões de brasileiros saíram da classe D para ingressar na classe C. Dirá, ainda, que tal inclusão não resulta de transferência direta de renda por meio de ações assistencialistas. Dados do IBGE atestam ter havido, entre 2003 e 2008, um ganho real médio de renda do trabalho per capita de 7,3%. Ou seja, a classe média teve crescimento real de renda. Sob essa crença, o governismo aposta que os integrantes da nova classe média despejarão o voto em Dilma Rousseff, identificando-a como a pessoa que ajudou a plasmar sua ascensão. Certo?

Em termos. Dilma deverá receber, por gratidão a Lula, boa parcela dos votos dos novos habitantes do meio da pirâmide, principalmente de eleitores de regiões tocadas pelo braço assistencial, como Norte e Nordeste. Mas é preciso enxergar que no seio dessa nova classe emerge um eleitor pragmático, racional, que enxerga o todo e as partes, candidatos, competências e circunstâncias. E a indagação que preocupa esse perfil é: quem tem melhores condições de garantir as conquistas alcançadas?

O fato é que o País avança na direção de uma comunidade política mais sensível aos valores republicanos. Doses morais e éticas são exigidas dos laboratórios da política. Benefícios e programas de cunho social são identificados com todos os governos, não sendo exclusividade de A, B ou C. Esse é o outro lado da moeda. O sufrágio de agradecimento locupletará apenas parte das urnas. Ainda mais quando se sabe que a classe C (média baixa) é a mais plural de todas, dividindo-se entre categorias, profissões, setores, áreas e nichos. Como arremate, é razoável imaginar que alguns núcleos sejam influenciados pelas entidades que os abrigam. Nesse caso, vale conferir o poder das entidades organizadas. E lembrar que o governo fortaleceu cadeias produtivas, contempladas por programas de acesso ao crédito e de isenções de tributos. Aliás, esses fatores são frequentemente pinçados para demonstrar que o Brasil foi um dos últimos a entrar e um dos primeiros a sair da crise.

Por último, a radiografia mostrará a policromia regional, cujo pincel é a cultura. O eleitor não é um ente apartado do hábitat. Daí a importância da cor local no processo de decisão. Os quatro cantos do território possuem costumes, tradições e linguagens. Confundir o nome de uma cidade com o de outra, por semelhança fonética, ou mesmo citar o Estado errado, são gafes que poderão criar embaraços a qualquer candidato. Imagine-se ele num Estado de orgulhosas tradições, como o Rio Grande do Sul, ignorando o significado da Revolução Farroupilha.

É evidente que candidatos não serão instados a percorrer as sinuosas veredas da história regional, mas quando desafiados a fazê-lo, sairiam bem na fita se desfiassem um fio de conhecimento. O caleidoscópio eleitoral será cheio de surpresas.

JORNALISTA, É PROFESSOR TITULAR DA USP, CONSULTOR POLÍTICO E DE COMUNICAÇÃO

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